sábado, outubro 04, 2008

Debate vicepresidencial e outras coisas...

Ontem tive curiosidade e vi, na íntegra, o debate entre os candidatos à vice-presidência estadunidense e não deu para ficar sem tirar algumas notas mentais, enquanto observador de linguagem não-verbal.

Como todos os demais, fiquei surpreso com a prestação inicial de Sarah Palin, a candidata republicana que, há dias, não sabia explicar os seus conhecimentos de política externa nem era capaz de citar os jornais que lê. Foi vitoriosa na primeira parte do debate, sabendo contornar as questões e tocar naquilo que parecia considerar o cerne.

Chegou mesmo a incomodar o seu rival, Joseph Biden, um senador experiente que não parava de demonstrar nervosismo no sorriso que demorava imenso tempo a desaparecer ou a passar a mão, com frequência, pelo cabelo ou a coçar o pescoço ou o nariz. Chega mesmo a engasgar-se e gaguejar ao falar. Mas engasga-se num momento em que está a explicar coisas que sabe e que possui muita informação, como que se o seu cérebro fosse mais rápido que as suas cordas vocais.

Biden, explica o plano de saúde do rival de uma forma que, mesmo repetindo a cena um par de vezes, não fui capaz de perceber. E Sarah Palin, ao invés de retrucar, diz que “posso não responder da forma como você ou a apresentadora querem”, mas aquilo que o povo americano quer. Tenta empatizar com a audiência. Olha para a câmera e raramente para o oponente – estratégia essa que deve ter sido dita pelo responsável da campanha pois McCain nunca olhou para Obama no debate entre eles. Parece que a juventude e vitalidade de Obama e de Palin assusta um pouco a idade de McCain e Biden!

No momento crucial, no qual o candidato democrata é o rei (negócios estrangeiros), ela parece estar em modo hibernação. Não se move, não pisca, não sorri e quase não se mexe. E quando reage, tenta explicar, à sua maneira inexperiente, que não se pode sentar incondicionalmente com alguns países e negociar, como Obama propôs. Biden nega essa proposta e nega ter sido a favor da guerra do Iraque. Ao que ela responde, sorrindo docemente para a câmera, que é aqui que se vê que ela não é de Washingont, pois “lá de onde eu venho, não votamos a favor e depois dizemos que somos contra”, referindo-se ao facto de Biden, enquanto senador, ter aprovado a guerra no Iraque.

E lá vai a governadora, pelo debate, dizendo que “para uma legenda que clama ser a mudança, vocês olham muito para trás” e que John McCain é o verdadeiro independente. Disse-o tantas vezes que Biden acabou por interrompê-la certa vez para explicar como é que McCain não é independente (ela nunca mais tocou no assunto). Ora, se há algo que se diz uma vez e pega, não se pode continuar dizendo de modo a permitir que o outro, nalgum momento, nos enterre com as nossas palavras.

Sarah Palin é inexperiente, material para prefeita, governadora e miss. Algum dia, talvez, presidenciável. Quando lhes perguntam sobre os seus defeitos ela dá voltas e se contorce (o de ser inexperiente). Ele, Biden, transforma-o em virtude: ser indisciplinado não é um defeito, é uma capacidade de sobreviver às dificuldades de forma original. Chega mesmo a agir como Palin, falando da falecida esposa, parando durante um instante e baixando o seu tom de voz.

Ambos eram muito parecidos, com a diferença que Palin falava para o público, mostrando-se uma de nós, enquanto que Biden respondeu com retórica, argúcia e palavras que, mesmo que imperceptíveis pelo teor, eram bem estruturadas.

O debate foi ganho por ele, mas, o otimismo dela poderá ter dado uns pontos à campanha, já que os estudos demonstram que os candidatos mais otimistas são os que ganham as eleições.

Agora, é aguardar pelos resultados.

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2 Comentários:

Anonymous nabs disse...

i didn't follow the debate, but hey, it's funny how i just got an update on whats happening on my continent from you. hahah

06 outubro, 2008 02:23  
Blogger Jonice disse...

Adorei ler esta sua análise, Sam.
Ela me informa da maneira que eu mais aprecio conhecer fatos, de um jeito que não é o que rotineiramente a imprensa usa como linha e como seria bom se fosse.

Have a good week :)

06 outubro, 2008 10:02  

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