sábado, novembro 15, 2008

O poder dos grupos sociais

Barack Obama ganhou as eleições estadunidenses por uma sucessão de fatores simultâneos. Pertence ao partido ao qual o atual presidente impopular não pertence, o seu oponente não teve o apoio dos grupos mais conservadores que deram vitória ao seu predecessor, não teve outro candidato a retirar-lhe votos como ocorreu com Gore, teve apoio da comunicação social que filtrou as gafes na sua campanha, e até o seu aspecto físico dava-lhe aquilo que prometia ao público: mudança.

Apesar de tudo isso, que qualquer outro candidato poderia ter (Hillary Clinton seria uma candidata mulher e Bill Richardson o primeiro hispano-americano), ele tinha algo a mais: uma rede social (aliás, muitas redes sociais).

Obama possui uma aplicação no facebook e um MyBarackObama, aonde se poderiam criar perfis, grupos de apoio, entradas de blog, campanhas de angariação de fundos e muito mais, como qualquer comunidade virtual. Além disso, criou uma mailinglist personalizada, cujos participantes recebiam, a cada novidade, um email ou uma mensagem escrita personalizada e assinada por Barack.

O NYTimes chegou mesmo a compará-lo com a Enciclopédia Livre, chamando-o de Wiki-Candidato. Foi o verdadeiro candidato do século das tecnologias! Mas não só na propaganda, como na participação baixo-cima. O futuro permitirá olhar para a campanha presidencial e ver a participação espontânea de várias pessoas (famosos e anónimos) em suas próprias iniciativas pessoais. Yochai Benkler, especialista, menciona uma nota interessante: a página de Obama primeiro estabelece uma relação com as pessoas e depois pede o donativo, enquanto que as páginas de Clinton e McCain faziam o contrário.

Permitiu a participação de várias pessoas, a criação dos seus próprios espaços, o desenvolvimento de suas ideias. Deu a mudança através da própria possibilidade de participação coletiva. A tal ponto, aliás, que a Scientific American especula a possibilidade de haver na nova Administração a tomar posse em Janeiro próximo uma espécie de representante junto a redes sociais e ao público em geral, de modo a alcançar as bases, pois sim, apesar de haver participação baixo-cima, as grandes decisões serão cima-baixo, o que me leva a uma pergunta simples:

Como poderá chegar a mudança, se o sistema instituído não é mudado?

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Vencer na derrota
Jornalismo Parcial!

Debate vicepresidencial e outras coisas...

Eleições EUA: o último dos tabus

O país da multiculturalidade e da multipossibilidade
A Liderança Servidora...?! Aonde está ela?
Bahá'u'lláh - O governo vive pelo povo

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quarta-feira, novembro 05, 2008

Vencer na derrota

Ontem, pela madrugada, fui acompanhando resultados parciais das eleições estadunidenses. E hoje, pela amanhã, acordo com os resultados que, ainda que não definitivos, anunciavam Barack Obama como um dos vencedores.

Sim, um dos vencedores. Vencer uma batalha política é, indubitavelmente, uma vitória. Mas o verdadeiro campeão da noite foi John McCain. Senhor de uma história sem igual, McCain, como ele próprio menciona, serviu a sua nação por meio século.

Foi herói de guerra. Prisioneiro por cinco anos e meio (1967) no Vietnam, McCain diz ter entrado na vida política para marcar uma diferença. Candidato a primárias anteriores, perdeu sempre por uma razão: era demasiado light para ser um Republicano dos tempos modernos. Não tinha o apoio do partido de George Bush ou de Richard Nixon. Era capaz de ver para além da distinção partidária: unia-se a Democratas contra decisões do seu próprio partido se necessário. Era, aliás, o Republicano guerreiro, político e diplomata como Abraham Lincoln ou Thomas Jefferson. E não um Republicano perdido!

A sua vitória nas primárias contra Romney, Duncan, ou Huckabee foram prova disso! Até os republicanos querem a mudança! Todos querem a mudança! John McCain seria essa mudança no Partido Republicano que, outrora, lutava pelas igualdades raciais e pela integração das minorias.

E, foi com essa cabeça erguida e com essa comoção que se apresentou aos seus apoiantes após a honrosa derrota. Disse aos ouvidos de quem quis escutar que: “Hoje, fui um candidato ao posto mais alto do país que tanto amo. E nesta noite permaneço-me como servo dela. Essa bênção é suficiente a qualquer um”.

Essa, aliás, é a mais elevada das posições. Declarou apoio ao Presidente Eleito Barack Obama, apesar das vaias de parte do público, e pediu a todos esse apoio. Mais, sabia-o, nas palavras, no olhar, na boca seca que a sua derrota era prenunciada há muito.

Pelos apartidários era visto como Republicano como Bush, pelos Republicanos era visto como demasiado centrista, pelos feministas como apoiante de uma mulher de “débil inteligência” (como a caracterizou hoje o noticiário da TVE). E, as pessoas queriam a mudança. Se tivesse ganhado as primárias há oito ou vinte e quatro anos, talvez a coisa fosse diferente!

O início do seu discurso (como aliás todo o discurso) não foi o discurso de um perdedor, mas o discurso de um campeão. Louvou a “habilidade e perseverança” do seu oponente e vencedor, dizendo que foi capaz de “instar esperança em tantos milhões de americanos que acreditavam ter pouca influência na eleição de um presidente americano”, e defendeu a honra que foi, para si, participar de “uma eleição histórica”:

A América, hoje, está a um mundo de distância do fanatismo cruel e apavorante de outros tempos.

Quando se ganha, é fácil ter um discurso de vencedor. Mas quando se perde (com apenas 8 milhões de votos de diferença, muito menos do que muitos pensavam), faz-se um desafio vencer a derrota, digerindo-a com rara e fina elegância.

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quarta-feira, outubro 15, 2008

Dia de Ação Blogal: pela eliminação da pobreza Global

Há algum tempo atrás, a Organização Internacional do Trabalho revelou que o crescimento de 5% de PIB mundial não é suficiente para impedir o aumento do desemprego para quase 190 milhões de pessoas (aproximadamente 6% da população mundial), prevendo um aumento de 5 milhões de desempregados só para este ano. Informa ainda que entre os que trabalham, metade possui emprego instável e 43,5% (1.300 milhões de pessoas!) e 16,4% (487 milhões) vivem com menos de 2 e 1 USD por dia, respectivamente.

Nos meus tempos de mestrado aprendi que existe uma clara relação entre a percepção de pobreza e o volume de determinadas áreas cerebrais relacionadas com o stress. Os estudos afirmam também que crianças (em especial até aos 3) crescendo em famílias com baixa condição social experienciam níveis prejudiciais de hormonas relacionados com o stress, podendo atrasar seu desenvolvimento (em áreas como a linguagem e a memória). Já na época da Grande Depressão dos anos 30, pôde-se até observar que o desemprego influenciou negativamente a auto-estima e as relações conjugais e familiares.

É, por isso, essencial sensibilizar para a vitalidade dos valores espirituais na resolução de problemas económicos, fazendo com que justiça seja valorizada e não ambição, e que o fosso entre ricos e pobres cesse de aumentar, permitindo a realização de um crescimento sustentável e o estabelecimento de prosperidade global.

A Comissão Permanente para o Alívio da Pobreza da UNCTAD defende quea luta contra a pobreza (...) é de interesse de todos, pobres e ricos, doadores e beneficiários, num estágio nacional ou internacional” e a não posso senão compartilhar essa visão, pois trabalhar e estar empregado é um direito inalienável e uma responsabilidade vital, assumindo-se como esforço espiritual, ao ponto de, a Fé Bahá'í, por exemplo, elevá-la à posição espiritual de adoração.

Essa sacralização do trabalho enraíza-se na sua perspectiva de desenvolvimento social e económico. Os Textos Bahá’ís mencionam queas condições do povo devem ser arranjadas de tal modo que a pobreza desapareça, que todas as pessoas, tanto quanto possível, de acordo com sua classe e posição, participem do conforto e bem-estar”.

As comunidades devem ser encorajadas a identificar as suas próprias necessidades e começar seus próprios projetos, com o intuito de aliviar a pobreza, baseando-se em princípios económicos e, sobretudo, em valores morais e no encorajamento comunitário como um todo.

Em psicologia, Erich Fromm nos ensina que sanidade é sinónimo de amar e trabalhar. Assim, a maturidade humana é medida pela capacidade de criar e cuidar de gerações futuras. A produtividade, portanto, não é apenas produzir resultados mas, antes, um modo de se orientar perante o mundo e perante si mesmo, num contínuo processo de viver. Pois, como se pode ler:

“Benevolamente temos elevado vossa ocupação em tal trabalho ao grau de adoração a Deus, o Ser Verdadeiro. Ponderai em vossos corações as graças e bênçãos de Deus e rendei-Lhe agradecimentos, ao anoitecer e ao alvorecer. Não desperdiceis vosso tempo em indolência e ociosidade. Dedicai-vos àquilo que a vós mesmos e aos outros possa trazer proveito”.


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O dia que a Diversidade traz a Unidade da Humanidade! (Blog Action Day 2007)
Um Mundo, Uma Vida, e muitas vozes! (Blogagem pelos Direitos Humanos 2007)

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domingo, outubro 12, 2008

Jornalismo parcial!

Jornalismo deveria ser imparcial! É o que eu sempre pensei, o que sempre defendi.
Tenho amigas e amigos jornalistas, professores de jornalismos, estudantes de jornalismo. Eu mesmo estive envolvido com jornalismo universitário e com jornalismo científico e tentei sempre aprimorar o meu trabalho em imparcialidade! A verdade é que é um trabalho árduo e difícil. Muitos chamam-me a atenção para este ou aquele ponto que pode ser melhorado e, ouvindo os conselhos dos amigos, vou tentando caminhar para aquele estado no qual o jornalismo é um espelho polido da realidade!

Mas será que o jornalismo real, sério, prático segue esse caminho? Será que o New York Times e a CNN, os meus dois meios de comunicação prediletos são imparciais, neutros, corretos? A resposta, claramente, é... NÃO!

Recebi há cerca de 24 horas dois alertas na minha caixa de correio eletrónico. A notícia de última sobre a Governadora do Alaska, que estava em investigação antes mesmo de ser conhecida como vicepresidenciável por alegado abuso de autoridade.
O alerta da CNN, que remetia para a notícia, dizia:
A Gov. Sarah Palin abusou de seu poder no estado ao demitir um oficial mas não violou a lei, um painel legislativo do Alaska constatou.
O alerta do NYTimes, também remetindo para uma notícia, dizia:
Um comité legislativo investigando a Gov. Sarah Palin constatou que ela ilegalmente abusou de sua autoridade ao demitir o comissário público de segurança do Alaska.

Achei estranho! Um diz que é ilegal e o outro que não?
Reparem nos textos que apareciam no próprio site àquela hora. Li os textos, e a CNN era clara que ela agiu dentro das suas competências e da legalidade, apesar da situação ser dúbia. O NYT dizia que ela agiu abusivamente.

Pensei um pouco, e lá fui à pesquisa e o que descobri, senão o que eu já imaginava.
Aos menos atentos, relembro, Sarah Palin está na equipa presidenciável republicana.

Richard D. Parsons, chairman do Conselho de Diretores da TimeWarner (proprietária da CNN) é... Republicano!
E Arthur Sulzberger, Jr., chairman do Conselho de Sócios (e filho, e neto dos chairmen anteriores) da NYT Company, é... membro de uma família que é tida como clara apoiante dos democratas (sejam quais forem!) e o próprio jornal está cheio de ideias liberais.

A questão não é se apoio a este ou aquele candidato. Se ajudo-o ou não! Se sou isto ou aquilo. A questão é que o jornalismo não pode brincar com os factos. E apesar de o NYTimes ter vindo a alterar o texto 18 minutos mais tarde, a maior parte só lê o texto que vai à caixa de email e não abre a notícia. E lá, era claro, a mulher agiu ilegalmente! A verdade aqui não é suficiente (ela agiu de forma dúbia! não, aproveita-se até ao máximo e abusa-se a verdade).

Sinceramente, não sou nem pró-McCain/Palin nem anti-Obama/Biden. Nenhuma das duas listas é, na minha perspectiva, boa o suficiente! Mas, já me dão asco as notícias incompletas, falaciosas, tendenciosos.
A imprensa Obama elogia o ser ar fresco de quem não é do sistema e critica o facto de Palin não ser do sistema e ser inexperiente. Criticam os votos pró-guerra McCain e elogiam a posição anti-bélica de Biden quando ele, na verdade, votou a favor da guerra! A filha grávida de Palin é sinal de malfuncionamento familiar, mas ninguém relata a história do irmão de Obama que vive numa favela de Nairobi possa ser o mesmo! McCain esteve envolvido num escândalo político dos anos 80, mas Obama nunca se envolveu com o cartel mafioso!
A imprensa McCain tampouco é santa! Cria mentiras e desvirtua verdades! Chama Obama de terrorista. Critica a diferença de pensamento entre Biden e Obama, mas não repara que Palin não poderia ser mais diferente de McCain.
E a lista continua... nem vale a pena continuar a dizer seja o que for.

No fim, a vitória será de um homem: Obama ou McCain! As consequências? Essas sim, serão vividas por todos!

(se o Pres. Obama fizer asneiras, o NYTimes vai encontrar forma de justificar e se o Pres. McCain fizer algo louvável, quem sabe, o NYTimes vai dizer que foi um conselheiro democrata que o levou a tal...)


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Debate vicepresidencial e outras coisas...

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sábado, outubro 04, 2008

Debate vicepresidencial e outras coisas...

Ontem tive curiosidade e vi, na íntegra, o debate entre os candidatos à vice-presidência estadunidense e não deu para ficar sem tirar algumas notas mentais, enquanto observador de linguagem não-verbal.

Como todos os demais, fiquei surpreso com a prestação inicial de Sarah Palin, a candidata republicana que, há dias, não sabia explicar os seus conhecimentos de política externa nem era capaz de citar os jornais que lê. Foi vitoriosa na primeira parte do debate, sabendo contornar as questões e tocar naquilo que parecia considerar o cerne.

Chegou mesmo a incomodar o seu rival, Joseph Biden, um senador experiente que não parava de demonstrar nervosismo no sorriso que demorava imenso tempo a desaparecer ou a passar a mão, com frequência, pelo cabelo ou a coçar o pescoço ou o nariz. Chega mesmo a engasgar-se e gaguejar ao falar. Mas engasga-se num momento em que está a explicar coisas que sabe e que possui muita informação, como que se o seu cérebro fosse mais rápido que as suas cordas vocais.

Biden, explica o plano de saúde do rival de uma forma que, mesmo repetindo a cena um par de vezes, não fui capaz de perceber. E Sarah Palin, ao invés de retrucar, diz que “posso não responder da forma como você ou a apresentadora querem”, mas aquilo que o povo americano quer. Tenta empatizar com a audiência. Olha para a câmera e raramente para o oponente – estratégia essa que deve ter sido dita pelo responsável da campanha pois McCain nunca olhou para Obama no debate entre eles. Parece que a juventude e vitalidade de Obama e de Palin assusta um pouco a idade de McCain e Biden!

No momento crucial, no qual o candidato democrata é o rei (negócios estrangeiros), ela parece estar em modo hibernação. Não se move, não pisca, não sorri e quase não se mexe. E quando reage, tenta explicar, à sua maneira inexperiente, que não se pode sentar incondicionalmente com alguns países e negociar, como Obama propôs. Biden nega essa proposta e nega ter sido a favor da guerra do Iraque. Ao que ela responde, sorrindo docemente para a câmera, que é aqui que se vê que ela não é de Washingont, pois “lá de onde eu venho, não votamos a favor e depois dizemos que somos contra”, referindo-se ao facto de Biden, enquanto senador, ter aprovado a guerra no Iraque.

E lá vai a governadora, pelo debate, dizendo que “para uma legenda que clama ser a mudança, vocês olham muito para trás” e que John McCain é o verdadeiro independente. Disse-o tantas vezes que Biden acabou por interrompê-la certa vez para explicar como é que McCain não é independente (ela nunca mais tocou no assunto). Ora, se há algo que se diz uma vez e pega, não se pode continuar dizendo de modo a permitir que o outro, nalgum momento, nos enterre com as nossas palavras.

Sarah Palin é inexperiente, material para prefeita, governadora e miss. Algum dia, talvez, presidenciável. Quando lhes perguntam sobre os seus defeitos ela dá voltas e se contorce (o de ser inexperiente). Ele, Biden, transforma-o em virtude: ser indisciplinado não é um defeito, é uma capacidade de sobreviver às dificuldades de forma original. Chega mesmo a agir como Palin, falando da falecida esposa, parando durante um instante e baixando o seu tom de voz.

Ambos eram muito parecidos, com a diferença que Palin falava para o público, mostrando-se uma de nós, enquanto que Biden respondeu com retórica, argúcia e palavras que, mesmo que imperceptíveis pelo teor, eram bem estruturadas.

O debate foi ganho por ele, mas, o otimismo dela poderá ter dado uns pontos à campanha, já que os estudos demonstram que os candidatos mais otimistas são os que ganham as eleições.

Agora, é aguardar pelos resultados.

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quinta-feira, junho 26, 2008

Escolha o local do voto e escolherá o resultado...

Estudo recente demonstra que o local aonde votamos influencia a direção do voto.

Por exemplo, votar numa escola sobre o aumento dos apoios financeiros ao sistema educativo faz com que as pessoas, tendencialmente, estejam mais inclinadas a votar a favor que aqueles que votam numa igreja ou na central dos bombeiros.

O interessante é que o estudo foi testado e replicado tanto em laboratório como em sistema real (após ver imagens, no primeiro caso, ou durante eleições que aconteceram mesmo).

Assim sendo, se votarmos na Assembleia da República, ou na própria sede do Governo, talvez estejamos mais atentos em quem votamos, ou não?

Ou melhor, se votamos no local de maior índice de pobreza, estaremos votando naqueles que possuem melhores planos de erradicação da pobreza?

Se votarmos nos tribunais, estaremos mais aptos a eleger pessoas justas?

Acho que nem a investigação nos poderá responder a isso…

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terça-feira, junho 03, 2008

Eleições EUA: o último dos tabus

A questão presidencial estadunidense centra-se hoje numa pergunta: qual é o fator humano que se afigura como mais importante?

Idade? Género sexual? Origem étnica?

Num artigo publicado no mês de Janeiro Gloria Steinem – uma admirável mulher que nos fez, há duas décadas (quer dizer, no meu caso não foi bem duas décadas…), pensar o que seria de Freud e da psicologia se ele fosse uma mulher – analisa uma mulher fictícia: Achola Obama, o alter-ego feminino de Barack Obama, o candidato presidencial. Ela diz:

A mulher em questão torna-se advogada após alguns ano, casa-se com um advogado corporativo e é mãe de duas meninas, de 9 e 6 anos. Ela mesma é filha de uma americana branca e de um africano negro – (…) sendo considerada negra – serviu como legisladora no seu estado por oito anos e tornou-se uma inspiradora voz para a unidade nacional.

Seja honesto: Acha que é a biografia de alguém que poderia ser eleito para o Senado do Estados Unidos? Depois de menos que um mandato lá, acredita que ela poderia ser um candidato viável para encabeçar a mais poderosa nação na terra?

E, ao ler, pensei: o que seria de Hillary Clinton se ela tivesse o seu Currículo e fosse negro e não branca? A autora diz que, tristemente, há dois pesos e das duas medidas nesta corrida:

O que me preocupa é que ele seja visto como unificador pela questão da raça enquanto ela é divisora pelo seu sexo.

O que me preocupa é que ela é acusada de "jogar a carta do género" quando cita o clube dos rapazes, enquanto ele é visto como unificador ao citar os confrontos pelos direitos civis.

O que me preocupa é que votantes homens de Iowa tenham sido vistos como livres de género ao apoiar um deles, enquanto que votantes femininos são vistos como enviesados se o fizessem e desleais se não o fizessem.

Geraldine Ferraro, por sua vez, propõe que sejam feitos estudos que verifiquem se, ipso facto, houve a (in)devida utilização das questões sexuais e raciais na campanha democrata.

Dá que pensar, não? Afinal estarão as pessoas a votar no que? Na pessoa que consideram mais adequada ao lugar, naquela de melhor imagem, ou naquela com quem se identificam mais?

na questão da idade, parece que a coisa amolece: ou não se tem qualquer respeito pela questão etária, ou se considera perigoso brincar com a questão sexual ou racial.

Jay Leno, do Tonight Show, brinca e diz que "Operativos Democratas estão a procura de algo sobre John McCain. Sabem o que se chama a alguém que desenterra coisas sobre McCain? Um arqueólogo". "Ontem tivemos Cindy McCain e ela falou da sua antiguidade favorita: o seu marido".

No Late Late Show Craig Ferguson disse que "John McCain admitiu hoje não ter votado em George W. Bush. Ele, contudo, votou em George Washington.

Obviamente, ninguém faz uma piada sobre a questão racial. Será que preconceito etário (idadismo) não é tão grave quanto o preconceito racial? Possivelmente poucos eleitores daquele país arriscariam dar uma resposta. A Newsweek, por exemplo, foi capaz de a 24-25 de Abril verificar que 19% dos sondados não consideraria o EUA preparado para um líder máximo afro-americano e 7% não estariam seguros. E quando se perguntava aos 74% que disseram que sim, 53% deles achava outros que disseram que sim poderiam estar a mentir (projeção? disseram eles mesmos que sim por ser o politicamente correto?).

É interessante como três aspectos humanos parecem estar aqui em jogo. Afinal de contas, cada um dos três candidatos atuais representa um grupo que tem sido vítima constante de algum preconceito e de alguma discriminação em sua sociedade e cabe ao eleitorado quebrar um dos últimos tabus.

  • Idade? McCane?
  • Raça? Obama?
  • Sexo? Clinton?

Ou, então, simplesmente, demonstrar maturidade e votar no que lhes pareça ter melhor carácter e ser mais competente (será?).

Termino parafraseando Anna Holmes, num artigo recente sobre a campanha democrata:

Por muito tempo, a história da mulher, a questão racial e o preconceito etário têm sido histórias de silêncio. Já é tempo de se começar a fazer algum barulho.

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terça-feira, maio 20, 2008

Jornais como espelho do mundo e não da propaganda

Washington Araújo afirma que “recebemos ondas e ondas de notícias, muitas delas, apenas pela metade, outras tocando a verdade, os fatos de maneira muito superficial e até tendenciosa”, e isso foi o que aconteceu há menos de pouco tempo, mesmo ao meu lado.

Há cerca de um mês (13 de Abril), sites noticiosos a que subscrevo foram enviando uma informação sobre uma explosão que ocorrera na cidade de Shiráz (Irã). As notícias iam mudando à medida que o tempo ia passando:

  • Ocorreu uma explosão no Irã;
  • Ocorreu uma explosão na cidade iraniana de Shiráz, provocando vítimas;
  • Ocorreu uma explosão em mesquita da cidade iraniana de de Shiráz provocando vítimas letais e número desconhecido de feridos;
  • Ocorreu uma explosão na mesquita na qual se faziam críticas aos grupos wahabistas e bahá’ís, na cidade iraniana de de Shiráz provocando número X de vítimas letais e de feridos.

A notícia ia, assim, como que evoluindo e sempre pedindo àqueles que lá estavam que fossem dando notícias. O número de mortos cresceu de 9 a 12 em poucas horas; os feridos de 56 a mais de 12 dezenas e as insinuações que foram ganhando vida.

O Sr. Enjavinejad, o principal clérigo da mesquita Mártires de Hosseyn e quem discursava aquando da explosão, prontificou-se a dizer que “acreditamos ser possível que os bahaioons tenham mão nisso”. Os noticiosos diversos, mundo afora, sem pensar nem ler, meramente traduziram o texto da Agência Governamental Fars. Da BBC inglesa à brasileira Folha de S. Paulo, podia-se ler que se tratava de um “encontro semanal de sábado sobre os grupos hereges wahabi e bahai”.

A Folha prontificou-se a corrigir o erro, retirando os termos herege e extremista de todas as suas notícias, assumindo o erro, e adicionando algumas novas frases à sua versão anterior: “Após 1979, a fé Bahai foi banida legalmente e seus seguidores não são reconhecidos pela constituição iraniana como minoria religiosa”. Notei ainda a neutralidade da CNN, e o viés de aparente neutralidade da Al-Jazeera, que, logo após falar da explosão durante os tais discursos menciona que “No ano passado, comunidades Bahais no estrangeiro dizem que alguns dos seus membros foram detidos em Shiraz enquanto trabalhavam com comunidades pobres”. Nunca tinha notado que um noticioso escrevesse algo como dizem que, quando se trata de verdades objetivas. 54 jovens bahá’ís foram presos (alguns muçulmanos também, mas liberados imediatamente mediante identificação religiosa), sob crime de propaganda contra o estado, quando estavam, sob a égide de um programa da Unicef, dando aulas de literacia a crianças de bairros carenciados…

Chegou-se mesmo a falar de uma bomba dentro daquelas pastas para computadores e que, minutos antes da explosão, foram vistas pessoas estranhas que lá deixaram um pacote suspeito, abandonando o local de imediato.

Esqueceram-se foi de mencionar que decorria, na mesma mesquita, uma exposição de armas e que, por falta de adequada segurança, a explosão, que foi acidental, ocorreu.

Interessante foi notar, entretanto, que vários sites noticiosos com espaços para comentários iam declarando que era uma explosão, mas originada por questões entre o poder instituído e a oposição iraniana. Havendo mesmo quem dissesse que "Estou ligando de Shiráz. Por agora as forças policiais estão tentando retratar isto como uma acidente, por outro lado estão pretendendo que são eles as vítimas ao mostrar os feridos e mortos. Parece que querem usar isto no momento adequado para seu próprio benefício; significa que pelo que estava sendo dito contra os nossos queridos Baha'is na reunião [na mesquita] querem pôr as culpas nos Baha'is".

A explosão no Irã foi um incidente, a explosão em Shiráz não foi um ataque bomba, e, finalmente, o Irã excluiu a possibilidade de ataque terrorista na explosão em Shiráz foram os títulos das notícias da própria agéncia Fars que, antes, evitava mencionar essa possibilidade. E os bahá’ís, segundo os noticiários que continuavam a falar deles, deixaram de ser violentos terroristas e passaram a ser “buscadores de prazer e com coração de galinha quem nem se atrevem a se identificar, quanto mais conspirar um ataque terrorista”.

E não é que não se decidem? Agora que 6 líderes informais da Comunidade Bahá'í iraniana foram presos, alguns noticiosos querem fazer crer que eles estariam envolvidos nas explosões. Por outro lado, alega-se que há um grupo de terroristas do EUA que foram já presos, e, por um outro lado ainda, Canadá e Israel são acusados de responsabilidade...

Mas, afinal, em quais das histórias aqui linkadas devemos crer?
Em qual dos relatores, autores, jornalistas, políticos e comentadores se deve acreditar?

Seja como for, nada disso importa! Os seis líderes informais da Comunidade Bahá'í iraniana estão encarcerados em Evin e o estado iraniano deve ter consciência que, da mesma forma que a investigação científica sugere, mensagens negativas indicando risco são consideradas mais confiáveis que as positivas, que os eleitores pesam mais a informação negativa que a positiva sobre os candidatos e que o viés negativo possui papel mais forte na modelação da opinião pública. Assim sendo, o que se pretende, sobretudo, é manchar a imagem da Comunidade Bahá'í do Irã, o que não é de me espantar pois quando amigos muçulmanos saem do Irã e me conhecem, aqui em Portugal, me comentam: “Vocês bahá’ís não são nada como nós pensávamos!”. Pois é, porque nós acreditamos que

A religião deve unir todos os corações e fazer com que as guerras e disputas desapareçam da face da terra, dar origem à espiritualidade e trazer vida e luz a cada coração. Se a religião torna-se causa de aversão, ódio e divisão, melhor seria deixá-la, e tirar-se de tal religião constituiria ato verdadeiramente religioso. Pois é claro que o propósito de um remédio é curar; mas se o remédio agrava a doença, é melhor deixá-lo de lado. Qualquer religião que não seja fonte do amor e da unidade, não é verdadeira religião.

('Abdu'l-Bahá, Palestras em Paris)

A afirmação daqueles meus amigos demonstra o quanto o entendimento depende da determinação e forma como a notícia é mediada pela comunicação social, e nem "posso imaginar porquê tão forte Bahai-fobia existe na sociedade iraniana".

Se, uma vez mais, como diria Araújo, “a imprensa deve ser vista como um espelho dotado de visão e fala. Ou seja, a busca da verdade, a busca do outro lado da notícia, a sinceridade na apuração das notícias ainda são os grandes pilares de um jornalismo saudável”, eu teria que concordar com ele e dizer que… é mesmo tempo de polir o espelho!


Fotos e vídeos da explosão estão ainda disponíveis pela rede.

Atualizado pelas 20h:
Como que, forçados pela pressão internacional, o Governo iraniano, através de seu Porta-Voz Golham Husayn Elham, declara, ante jornalistas iranianos e estrangeiros, sobre a prisão destes 6 bahá'ís que "movimentos organizados foram orquestrados contra a soberania nacional" "com estrangeiros, em especial com sionistas", terminando por afirmar que "confundir questões de segurança nacional com assuntos religiosos, que sequer penso que seja religioso, é um erro".
Quem leu este texto na íntegra e conhece o historial da situação, não pode, senão, pensar que se trata de uma declaração infundamentada com o único propósito de se justificar o injustificável.

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quarta-feira, abril 30, 2008

Outra forma de fazer eleições... as eleições Bahá'ís

Hoje foram anunciados os resultados para a eleição do corpo máximo governante da Comunidade Bahá'í de todo o planeta. É interessante notar como a blogosfera está atenta ao tema. Bahá'ís de vários países têm feito diversos comentários sobre a forma como essas eleições são levadas a cabo e, sem dúvida, falando-se nas eleições presidenciais do Brasil para 2010 as primárias estadunidenses deste ano ou mesmo as partidárias do segundo maior partido português para daqui umas semanas, me perdoem, não posso deixar de tentar fazer uma análise.

Para começar, o processo eleitoral não possui candidaturas, plataformas, campanhas:

A diferença fundamental entre os sistemas de candidatura e o sistema bahá’í é que, no primeiro, indivíduos, ou aqueles que os nomeiam, decidem que devem ser posicionados em posições de autoridade e colocam-se em frente para ser votados. No sistema bahá'í é a massa do eleitorado que toma a decisão. Se um indivíduo ostensivamente se posiciona sob o olho público com o evidente propósito de levar as pessoas a votarem nele, os membros do eleitorado consideram isso presunção e sentem-se afrontados por isso; aprendem a distinguir entre alguém que é bem conhecido como resultado desintencional de serviço público ativo e alguém que faz uma exibição de si mesmo meramente para atrair votos (a Casa Universal de Justiça, a 16 de Novembro de 1988, conforme citado).

Conforme a notícia oficial, numa cerimónia que combina “dignidade espiritual com diversidade global”, bahá’ís de 153 países elegeram os nove membros que constituem a Casa Universal de Justiça. Os delegados desta X Convenção Internacional (que decorre a cada 5 anos, desde 1963, ano de estabelecimento da Casa) são membros das Assembleias Espirituais Nacionais de todo o mundo que, por sua vez, foram eleitos por delegados escolhidos nas raízes locais de seus países o que, pode-se dizer, faz com que todos os bahá’ís adultos do mundo participem virtualmente desta eleição.

As eleições que começaram ontem refletem um processo único que enfatiza qualificações e não promessas, inclusão e não dinheiro e outras barreiras. Com um processo que exclui qualquer intento de partidarização, todas as formas de campanha são evitadas e nenhuma nomeação é feita, o que, os bahá’ís acreditam, acaba por proteger contra a divisão e a facciosidade. Como diria uma das delegadas pelo Canadá: “Como um resultado [disso], não há oportunidade para indivíduos encorajarem outros a votarem neles, quer magnificando suas próprias qualidades ou descobrindo falhas noutros candidatos. Subjacente a todo este processo está a confiança na oração e no esforço dos delegados em se manter informados das atividades da Comunidade Bahá’í mundo afora”.

O processo acaba por ser similar em todas as eleições bahá’ís, pois os seus Textos Sagrados enfatizam que se deve votar em pessoas de devoção abnegada, mente bem-treinada, reconhecida habilidade e experiência madura.

Imagine o que seria ao invés de eleger uma só pessoa para assumir a liderança, eleger um corpo de pessoas com estas virtudes para servir o bem comum? Naturalmente, algum leitor pode pensar que será impossível manejar uma eleição sem partidos, campanhas ou nomeações, mas o que acontece é que o sistema político-partidário acaba, assim, mais que unir, separar aos povos. O que seria se não tivéssemos a dicotomia entre um governo e uma oposição [que por definição “se opõe”], mas, em seu lugar, um conjunto de pessoas unidas a trabalhar pelo bem comum?

[A imagem mostra uma das delegadas votando e as 95 rosas enviadas pelos bahá’ís do Irã, aonde os seus cerca de 300 mil membros enfrentam perseguição e a sua administração foi banida pelo estado]

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segunda-feira, abril 28, 2008

Pronunciamento no Congresso Brasileiro

O deputado federal brasileiro, Fernando Ferro, no passado dia 8 de Abril faz o seguinte pronunciamento perante a Câmara dos Deputados que gostaria de partilhar:

«Sr. Presidente, ao mesmo tempo em que eu quero expressar o nosso respeito e consideração ao Governo e ao povo do Irã, que têm lutado pela sua autodeterminação, para garantir o seu espaço nacional, quero dizer que não posso concordar com os procedimentos no que tange à intolerância religiosa e perseguição ao direito de credo.

Recebi manifestações da Comunidade Bahá'í em que denunciam perseguições contra crianças nas escolas e intolerância religiosa e repressão política contra aqueles que expressam a Fé Bahá'í, o que também se estende a outras pessoas que têm manifestações religiosas que não o islamismo.

Quero crer que, para uma sociedade tolerante, em busca da paz no mundo, não podemos concordar com esse tipo de postura.
Vou encaminhar à Embaixada do Irã essas preocupações e essas denúncias e pedir esclarecimentos, em nome da paz.»

Eu gostaria de ver este grau de consciência dos líderes políticos das nações mundiais no que se refira a temas do próprio país e a todos os temas concernentes aos direitos humanos mundo afora. Afinal, uma sociedade humana mundial não poderá manter-se em silêncio enquanto o seu mais precioso bem -- as crianças -- são vítimas das mais terríveis perseguições, seja por que razões forem!

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segunda-feira, abril 21, 2008

Condições de trabalho: sonho dos empregados e pesadelo dos empregadores?

Sempre que vejo um horário de trabalho e vejo que tenho que sair entre as 16 e as 18 horas, penso no desperdício de tempo! No cansado que chegarei em casa, no blog que não poderei escrever, nos livros que não irei ler, nos familiares e amigos com quem não irei ter uma conversa, no cansado que irei estar.

Aí, quando vejo que, ainda por cima, terei, teria ou tive (conforme os casos) uma, duas ou três horas de almoço, acho ainda mais ridículo e incabível! Já estudante de 6º, 8º, 11º anos pensava assim: custa muito deixarem-me ter um horário de almoço mais curto e para poder trabalhar antes e sair mais cedo? Sentia-me um solitário abandonado numa viagem insana aos olhos dos demais. Mais valia nem discutir, descobri-o há um ano (finalmente!). Mas, então agora que me acalmo, não é que a Sodexo lança um estudo sobre a Qualidade de Vida e Conciliação com o Trabalho, na qual diz que eu não estou só?


Segundo o estudo, são 80% dos trabalhadores que chegam em casa entre as 16 e as 18 horas, 77% das mulheres em cargos de direção e 76% dos administradores os que concordam comigo. Afinal, comemos em dez minutos e lavamos os dentes, e que mais? Bebemos um café ou um chá? E…? Para quê a hora, hora e meia, duas horas que nunca mais acabam? Que não dão tempo de ir para casa, mas que nos dão tempo de sobra o suficiente para ficarmos mais inertes?


Claro que facilitaria ter serviço de alimentação no local de trabalho (a partir de umas 10 pessoas, acredito, já vale a pena mesmo contratar uma cozinheira)! 66% do pessoal intermédio, 64% dos homens nas direções e com filhos e 63% dos diretores sem filhos concordam comigo.

Também, segundo o estudo, 57% ainda acham que o menu deveria ser adaptado (suponho que seja baixo colesterol, menos açúcar, sem algum alergénico), 64% defende creche no local de trabalho e, ao que parece, o desejo de um local de repouso no trabalho é consensual: tanto os diretores intermédios como os administrativos parecem concordam com essa medida!


14% defende a criação de um instalações para exercício físico (42% acha que no trabalho não se exercita o físico e é contra!), 68% das mulheres defende um local (no trabalho) no qual alguém lhes faça a gestão das declarações fiscais (o que também não é injusto, se passamos a vida no trabalho, porque não o trabalho passar à nossa vida?) e 100% dos autores deste texto que está a ser lido agora (ou seja eu e eu mesmo) achamos que deveria também haver um local de meditação em todos os locais de trabalho, como o Conversas com Deus, que alguns grupos bancários brasileiros fazem, ou as Zonas de Tranquilidade como algumas empresas anglo-saxónicas defendem, aonde se pode meditar sozinho e em grupo, lembrando sempre que o ser humano é o corpo que come, a mente que trabalha e o espírito que permite tudo isso, ou não?

["...e sobretudo, agradáveis condições de trabalho"]

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sexta-feira, abril 18, 2008

Diversidade nas Organizações: realidade ou utopia

Unidade na Diversidade… Quantas vezes os leitores deste espaço leram aqui esta expressão? Pois bem, em minhas leituras habituais não paro de reparar como cada vez mais autores diversos utilizam este termo. Fui a já alguns congressos que, tratando da política à psicologia, iam utilizando estas palavras quase como slogan.

E, na semana passada, deparei-me com Eduardo Shinyashiki, aparentemente um especialista brasileiro nas áreas da liderança e no desenvolvimento pessoal, falando, numa entrevista, sobre a importância da diversidade nas organizações. Eu não poderia concordar mais com o que ele afirma:

Não ficar atento às diversidades custa caro para as empresas. Por exemplo, na dificuldade de reter talentos, gerar inovações, reduzir conflitos internos, enfim na dificuldade de evoluir. Se em um time todos jogassem na mesma posição, não haveria jogo. Cada jogador é interligado e interdependente do outro. Para criar o resultado do jogo, se estabelece um equilíbrio, uma cooperação e uma harmonia. A visão é complementar, não excludente. Não é nem simples nem fácil, mas é o caminho: o individuo como base para vencer desafios.

No ano passado tive o prazer de poder acompanhar, durante uma semana, a figura ímpar de Gordon Naylor, aquando da sua visita em Portugal. Em suas palestras e apresentações, ele explicou que havia três tipos de pessoas e, portanto, de relações humanas: aqueles que buscam exercer sua influência sobre alguém, os que querem estar com pessoas iguais a si mesmas e aqueles que procuram a diversidade. A minha experiência pessoal diz-me que este é o maior desafio: procurar pessoas que são diferentes de mim, estabelecer amizades com aqueles que não pensam como eu, não agem como eu, não sentem como eu. É um desafio, e nem sempre funciona: todos sabemos isso!

Mas, também sei que funciona. Eu, pessoa religiosa e sonhadora, tive a oportunidade de poder estar num núcleo de estudantes, nos meus saudosos tempos universitários, no qual tive como vice alguém que se afirma membro de uma esquerda anti-teísta e demasiado até pragmático para o meu gosto. Muitos achavam que não daria certo. Deu certo e hoje ainda somos grandes amigos. O que fez com que esta experiência funcionasse e outras não?

A resposta está nas palavras, não muito originais, de Shinyashiki:

A diversidade pode gerar conflitos quando não é entendida, utilizada positivamente como recurso e dirigida como numa orquestra em que várias pessoas tocam instrumentos diferentes para criar uma harmonia maravilhosa. O ato criativo no começo pode parecer um caos, mas com um claro objetivo comum, treino, força de vontade, persistência e um maestro que lidera, combina e integra as diferentes qualidades para atingir o objetivo comum, se pode chegar a uma obra de arte, quer dizer, empresas bem-sucedidas, objetivos realizados, satisfação dos colaboradores.


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quinta-feira, março 06, 2008

E quem segura as Américas?

Com tempo escasso para estar na internet, poder responder a emails dos meus mais amados e queridos entes e amigos, encontro-me assombrado com as relações que alguns países, neste subcontinente americano, estão desenvolvendo.
Vejamos:

Álvaro Uribe, presidente da Colômbia, dá ordem de invasão ao Equador (uns dizem que foram 2km e outros 8km) e de execução de Raúl Reyes, o número 2 da FARC e o negociador da libertação de Ingrid Betancourt. Hugo Chávez, vizinho por outra fronteira, avisa que se houver entrada de tropas colombianas no seu país, a guerra entre os países será iminente.
Claro que nos esquecemos que a Guiana acusa a Venezuela de entrar no seu espaço, explodindo estruturas!

Rafael Correa, presidente do Equador, começou a viajar, explicando ao Perú, Brasil, Venezuela, Panamá e República Dominicana, explicando que levou o caso à Organização dos Estados Americanos, pois a sua soberania foi invadida.
Não nego que se trata de um homem dotado de visão global: note-se as suas respostas a um jornal no Rio de Janeiro.

Assim, Uribe e Correa levam seus países a uma aparente rixa, na qual uns dizem que Uribe é o demónio e outros que é o herói e o mesmo das FARC, o mesmo de Reyes, o mesmo de Chavez.

Claro está que se Uribes, o presidente mais popular do continente americano, ataca um país vizinho não pode ser de confiança, mas também, claro está que a confiança se conquista num clima de sinceridade entre nações e, sobretudo, a confiança se fundamenta na segurança. Se eu não me sinto seguro com o meu irmão, com o meu pai, com o meu terapeuta, sentirei que poderei confiar nele? Claro que não! Defendendo esta mesma tese, Uribes promete levar Chavez a algum tribunal internacional por ter encontrado provas no Equador que o venezuelano apoia financeiramente as forças da FARC.

A se confirmar, o que se ganha? Querelas atrás de querelas. Se fosse há cem anos, poderíamos até imaginar o despoletar de uma guerra no Continente.
Mas o Brasil promete agir para amenizar os ânimos, evitando a piora da situação.

Estaremos começando a sentir as dores de parto de um novo modelo de Américas, ou apenas a caminhar para a iminente destruição das relações amigáveis entre estas nações? Talvez ainda seja cedo para isso. Temo que as dores de parto ainda estão longe e que as rixas vão se manter durante algum tempo, simplesmente, porque alguns líderes querem mantê-las, ao invés de se assumirem como servos de toda a Sul América...

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terça-feira, janeiro 29, 2008

Nem tudo em Feníxia é perfeito

Um conto que irei utilizar nas formações que darei em gestão de equipas!


Em Feníxia há uma fábrica de pneus, onde o Sr. Eternum, há quinze anos trabalha com colegas de cabelo verde, vermelho, azul e outras cores (alguns até têm cabelo de duas cores).

Durante este período, vários funcionários de cabelos de coloração diferente participavam em atividades diversas nos vários departamentos da indústria, cujo trabalho se complementava. Havia encontros mensais e trimestrais entre os vários departamentos para consultar sobre os progressos da produção e das vendas e, durante estes anos, o Sr. Eternum notava que as produções não aumentavam e havia até compradores que deixavam de regressar. Sempre pensou que a Administração Central bem que poderia dar umas dicas de o que é que o pessoal departamental deveria fazer para melhorar o rendimento, mas a Administração parecia confiar demasiado nos funcionários e deixava-os tomar eles mesmos as suas decisões.

Entretanto, um fênix – ao qual chamaremos o Sr. Miacho – de cabelo verde, transfere-se do departamento aonde o Sr. Eternum, de cabelo preto azulado, trabalhava para outro departamento adjacente, com a própria ajuda do seu amigo Eternum.

Certa vez, dois departamentos adjacentes (o do Sr. Eternum e o do Sr. Miacho) decidem ter algumas festas conjuntas, mas, no dia certo e na hora combinada por todos, ninguém aparece na festa na casa Sr. Eternum. Eternum telefona a Miacho, e Miacho não lhe atende o telefone. Eternum acha estranho, preocupa-se até, e pensa: será que eles estão a fazer a festa noutro lado e convenceram o meu amigo a não vir aqui? Quão não foi a sua surpresa quando percebe que a festa ocorreu, ninguém se esqueceu e ela foi, aonde? Justamente na casa de Miacho!

Eternum não entende, indignado tenta falar com o amigo, mas o amigo nunca lhe responde aos telefonemas. Certo dia, chega a saber que Miacho havia pedido para expor algumas alegadas preocupações à Administração Central da Fábrica PneusFenix, uma fábrica que se afirma a produtora dos pneus melhor adaptados às necessidades dos transportes modernos. Nesta expressão, ele explica que há problemas entre os vários membros de cabelo azul dos vários departamentos e que está cansado disso! Explica que o clima organizacional está pesado e que as pessoas não conseguem trabalhar em equipa.

A Administração Central, que até então jamais se havia manifestado, assustada por perder um de seus supostos valorosos funcionários convoca, por carta individual e vaga, todos os fenixianos de cabelo azul (o Eternum de cabelo preto azulado também). Na reunião, coloca-os contra a parede, e diz que a vossa administração não quer continuar a ver os confrontos que há entre os de cabelo azul, e quando os azuis perguntam quê confrontos?, a Administração (composta de fenixes de cabelo azul e vermelho) diz vocês sabem e, mais, se não mudarem de atitude alguns de vocês perderão o vosso emprego.

Ora, há falhas na história ou é só impressão minha?
Será que alguém me pode ajudar a encontrá-las?

  • Não deveria a Administração esclarecer os de cabelo azul?
  • Não deveria a Administração ouvir os de cabelo azul, antes de tecer opiniões?
  • Não deveria a Administração mostrar interesse e preocupação, antes de alertar?
  • E alertar antes de ameaçar?
  • Não deveria Miacho falar com Eternum?
  • Não deveria a Administração reunir-se com todos os funcionários ou deveria só escolher alguns funcionários, pela critério da cor de cabelo?
  • O que é que você faria se fosse um dos funcionários?
  • E o que você faria se fosse um dos 15 Administradores?
  • Passaria do silêncio à punição? Passaria da ausência à presença opressora? Ou com amor e real interesse orientaria?
  • O que você faria? É que eu sei, o que eu faria!

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quarta-feira, janeiro 02, 2008

O país da multiculturalidade e da multipossibilidade

Começa daqui a dois dias a grande corrida presidencial, no país em que talvez todos os cidadãos do mundo devessem votar: o Estados Unidos da América.

Sim “o” Estados Unidos, singular, porque é um só país. Há uns anos ninguém dizia “os Estados Unidos do Brasil” e hoje ninguém diz “os Estados Unidos do México”… Trata-se de uma única nação cujo sistema político, ímpar, pode ser o sistema político a ser adaptado numa possível federação Terra: cada membro do coletivo tem o seu peso, conforme a sua influência geo-economico-política. Um ser humano é um ser humano, mas um estado não pode ser comparado a outro, uma região não tem as mesmas especificidades que outra e, por isso, não se pode esperar que todas essas regiões sejam tratadas da mesma forma. O que a legislação eleitoral americana diz é simples: tratemos igual o que é igual, mas também sejamos justos e tratemos diferente o que é diferente.

E, é nessa diferença que encontramos um leque único de candidatos. Só nesta aceitação da diferença é que se poderia assentar a panóplia de candidatos às primárias, com a sua diversidade cultural, política e religiosa. Nesta corrida, (quase) tudo será possível!

Vejamos cada um dos lados.

  • John Edwards (54 anos) – O primeiro a anunciar intenção de candidatura é um democrata que sai do meio das terras do sul republicanos: é um pouco como ser cristão quando toda a família é judia. É assim, o senhor de uma imagem de progressista furioso.
  • Hillary Clinton (60 anos) – Ex-primeira dama traída pelo marido. Ex-primeira-dama extremamente popular. Esposa de um dos mais populares presidentes estadunidenses. Actual senadora extremamente popular, com suas intervenções no campo da saúde e da segurança social. Afinal, o que é que ela tem de especial? Tem tudo para ganhar, não tem? Até consegue ser a primeira mulher (logo à seguir à Geena Davies) a ter hipóteses de se imaginar na Casa Branca! (Com Bill Clinton na ala leste da Casa Branca a fazer de Primeiro-Cavalheiro).
  • Barack Obama (46 anos) – Inexperiente senador júnior que deu nas vistas quando Kerry/Edwards tentavam a vitória há cerca de 4 anos. Deu nas vistas, pelos mesmos motivos que dá nas vistas hoje: é negro mas não é descendente de escravos; é estadunidense filho de imigrante; e tem que correr para a campanha no senado a cada dois anos para garantir-se como o único negro lá e não tem qualquer forte experiência nacional, mas tem o carisma e o magnetismo de JFK. Um senador negro, ou melhor, um afro-americano à luta pela presidência (David Palmer ao menos era um conhecido congressista!).
  • Outros menos conhecidos são: Bill Richardson que poderia ser o primeiro hispano-americano a assumir a presidência, o que poderia ser uma vantagem para as negociações com os latino-americanos cada vez mais ressabiados (porque não repescá-lo para a vice-presidência?) e o primeiro a dizer que algo cheira mal quando se fala em Roswell; Dennis Kucinich o primeiro a assumir publicamente que teve contactos visuais com OVNIS (o que ainda por cima parece ter ocorrido na casa de Shirley MacLaine); Joe Biden seria o primeiro com implantes capilares e Chris Dodd o primeiro a dizer que os seus cabelos brancos provam que é o homem para o cargo (eu tenho um fio branco, seria apto a ser seu vice?); e há um Mike Gravel que poderia ser o primeiro presidente do EUA que se reformou no mesmo ano que eu nasci (não é a toa que nunca tinha ouvido falar dele: saiu da política em 1981 e agora quer ser Presidente! pode até ser o homem para o cargo, mas será que tem alguma hipótese popular?).

Do outro lado, o número de competidores aptos ao lugar são mais de três e por isso, organizo-os por idades.

  • Ron Paul (72 anos) – Membro da aeronáutica, batista, e médico ginecologista, portanto seria o primeiro presidente do EUA a dar a luz a mais de 4.000 crianças.
  • John McCain (71 anos) – Senhor de outra geração, seria o primeiro (e último talvez) prisioneiro de guerra do Vietname a chegar ao posto. É respeitado por todos, mas não tem tanto dinheiro que os demais; tem a maior carreira política e por isso talvez o menos adaptado aos tempos que correm (ou talvez o mais sábio, dependendo da perspectiva) e, como republicano típico (talvez o único qualquer coisa típico nessa corrida presidencial) apoiante acérrimo da guerra no Iraque (escusado será explicar essa desvantagem).
  • Fred Thompson (65 anos) – Tentativa de replay de Ronald Reagan, seria o ator, digo, o presidente mais alto da história da Casa Branca, com 1,98 metros. A sua vantagem está na altura e na voz robusta, mas a aparência sem um bom guionista não chega!
  • Rudy Giuliani (63 anos) – O super Mayor do 11 de Setembro que perde, por isso, o apoio dos bombeiros e policiais (mas será que a culpa foi dele ou dos que causaram a queda dos prédios?), sendo um conservador casado três vezes, moderno, progressista, mas preocupado com a segurança e o primeiro descendente de italianos com reais chances de chegar ao cimo da política estadunidense.
  • Mitt Romney (60 anos) – Não bebe cafeína (como poderá manter-se acordado para as grandes decisões?) pois seria o primeiro presidente do EUA a ser mórmon. A dificuldade de ser presidente do país e seguir os valores de sua fé são vistos nas aparentes mudanças de posição em temas polémicos (aborto, entre outros), mas consegue ser o que tem mais dinheiro e uma das melhores imagens desse período da campanha (não fosse o primeiro a ter aderido ao facebook!).
  • Duncan Hunter (59 anos) – faz jus ao seu nome: hunting down (caçando) os imigrantes ilegais (algumas de suas propostas são boas, mas isso de ser o hunter não é lá muito bom...).
  • Alan Keyes (57 anos) – é negro e republicano, o que, à primeira (à segunda e terceira vista) pode ser um problema na hora de ganhar votos, mas é inédito, como os demais!
  • Mike Huckabee (52 anos) – Consegue dividir o apoio da igreja Batista (tipicamente afro-americana) a Obama por um simples fato: é um ex-pastor batista. Moderado, bem-humorado e desconhecido.

Mas, depois disso, poderá alguém dizer que algum desses candidatos pode ser considerado clássico? Talvez Edwards ou McCain, mas e será que esses darão nas vistas por e com alguma vitória?

Vejamos o que os próximos meses têm para nos contar.

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segunda-feira, dezembro 31, 2007

O fim do ciclo é o começo de outro. Feliz 2008!

Escrevo este texto a menos de 24 horas do fim de um ano que valorizo tanto como o fim de qualquer outro ciclo. Os ciclos que acabam ficam lá, no passado, enquanto que os ciclos que começam são os nossos desafios e sonhos por vir. Esses sim deveriam ser celebrados!

Deixo para trás um 2007 cuja existência agradeço e regozijo. Um ano que me ensinou que um sonho pode tornar-se em pesadelo e que o pior dos pesadelos pode ser um sonho que não percebo.

Foi o ano o ano que fez ser convidado a alguns congressos científicos, como profissional dos modelos sistémico e logoterapêutico a falar de interculturalide, o que me ajudou a escrever artigos científicos e a dar formação na minha apaixonante Logoterapia. Enfim, um ano de aprendizagem profissional.

Foi também em 2007 que fui duas vezes a Roma (três anos depois de ter visitado a taciturna e bela Milão), que me fez conhecer uma das pessoas mais extraordinárias que poderia conhecer – o Sr. Ali Nahkjavani com quem tive a oportunidade de ter maravilhosas e estimulantes conversas. Conheci neste ano a luz e a sombra das pessoas e talvez até a minha própria luz e sombra, os meus limites e as minhas potencialidades. Encontrei, num outro prisma, pessoas cuja marca presente e constante em minha vida têm sido únicas: Peyman, Sahba e Sandra sempre presentes como bons amigos que são. E reencontrei bons amigos de outrora, como por exemplo a Daniela.

Na blogosfera vi a solidariedade de pessoas que participaram de ações coletivas em defesa do ambiente, da paz e dos Direitos Humanos, este último por mim organizado.

Ganhei novos amigos em países como Canadá, México, Uruguai, Áustria, França, Bélgica, Peru, Itália, Argentina e Timor. Mantenho aceso em meu coração o amor por Espanha e pelo Brasil. Vi, de muito longe, um tão esperado primo nascer.

Indignei-me ao ver Ahmadinejad a dizer que a Fé Bahá’í não é uma religião. Indignei-me com o falso moralismo de Puttin vetando a independência do Kosovo, pretensiosamente na defesa da integridade nacional de outros países europeus. Choquei-me com o fato de Chavez não se saber calar. Pasmei-me com a clara competência de Sócrates a gerir a sua presidência temporária, quem sabe a caminho de uma mais longa presidência, da União Europeia. E deliciei-me com o Oscar e o Nobel de Gore.

Mas o passado, que já lá foi, é substituído pelo presente e pelo futuro. A nossa percepção de futuro é o que nos faz sermos humanos.

2008 trará mais um pequeno passo, a unificação do idioma português numa só ortografia (que muito tem por lutar contra os barões que teimam em se manter presos ao passado). A unidade da humanidade está enraizada em nossos espíritos. As nossas dimensões físicas, psíquicas e espirituais vão sendo nutridas, em relações mútuas e sociais, mas a unidade mundial ainda tem um longo percurso pela frente.

Pergunto-me: qual será o papel de cada um de nós nesse processo? Quando é a Humanidade, em uníssono, se levantará em defesa da eliminação dos extremos de riqueza e pobreza, abolirá os preconceitos, instigará à eliminação dos fanatismos religiosos e científicos, e instituirá a educação para as virtudes e os valores?

Volto a deixar a pergunta para quem a quiser ler: “Qual será o meu papel neste processo de desintegração e integração?” A escolha está perante nós: Serei um bastião da crise ou um arauto da vitória?

Essa é a pergunta para 2008, um ano que espero que seja cheio de felicidade plena de sentido para todos nós!

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quarta-feira, dezembro 19, 2007

Faz como eu escrevo, mas não faças o que eu faço...

Há um velho ditado, quase universal, que nos diz: faz o que eu digo, mas não faças o que eu faço!

Pois bem, vou-vos contar algumas das últimas do que uma certa pessoa faz e defende:
  • Há uns dias, 24 ciber-cafés e 23 pessoas foram presas, por "comportamentos imorais".
  • Jelveh Javahari e Maryam Hosseinkhah encontram-se presas por participação em protestos pacifistas.
  • Existem 123 estudantes presos, 283 jornalistas convocados a tribunal, 1735 ativistas políticos e sociais nas prisões, 1.127 trabalhadores mortos no decorrer de seus trabalhos, dos presos políticos 8 encontram-se desaparecidos, 1 morto, 3 espancados e 3 tornados deficientes, 260 pessoas foram executadas e 313 esperam execução, dos quais 6 eram menores de idade, e 8 mortos à pedrada, 24.783 prisões públicas, 3 mortes suspeitas, 8 amputados e 1 olho retirado por ordem judicial, tudo só neste ano.
  • Os números gerais de enforcamentos e execuções públicas é o maior do mundo, as suas prisões incluem tratamento de choque elétrico e espancamentos, 100 jornais foram fechados e 10 milhões de websites tornaram-se "não-autorizados", sob a sua alçada.
  • Makwan Mouloudzadeh foi executado por ter alegadamente violado de três rapazes, quando eram todos menores de idade (e os próprios negam a acusação).
  • Hostilidade e violência contra os sufis e os seus locais sagrados torna-se comum.
  • Existe uma crescente vontade governamental em atacar, particularmente, os bahá'ís, através dos mídia, impedindo-os de se manterem economicamente ou de acederem à universidade.
E agora, o que a mesma pessoa, Presidente da mesma nação que comete as atrocidades acima e, inclusive, as promove, escreve as seguintes frases publicadas recentemente:
  • "A comunidade internacional afastou-se da paz, segurança e justiça devido à má gestão de alguns de seus atores" (será algum ato de humildade, que o faz falar de si mesmo?);
  • "Esperava-se que o novo mundo permitisse a todas as nações, à luz das universalmente aceites normas humanas e mútuo respeito," (as mesmas que são cumpridas nos exemplos anteriores?) "avançasse em conjunto, erradicasse a pobreza e a injustiça," (estará a falar do seu próprio exemplo?) "e deixasse de lado memórias do passado que não eram senão guerra, derramamento de sangue, violência e tensão" (o passado, mas e o presente não é igual?);
  • "Preveniu-se ao povo americano jogar o seu próprio papel na eliminação da tirania e violência e na ajuda em trazer paz, justiça e segurança" (mas permitiu-se ao povo iraniano fazê-lo?);
  • "Irã é um membro da Agéncia Internacional de Energia Atómica e uma signatária do Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Possui portanto o direito de combustível nuclear" (o mesmo país é membro do clube dos Direitos Humanos, daquele que firmou as mais variadas declarações sobre o tema, será que o povo iraniano não terá o direito a usufruir deles também?);
  • Ainda sobre o EUA diz que "políticas fora-de-prazo tais como ameaças e imposições de sanções somente conduzirão a mais perdas de oportunidades" (será que foi ele mesmo que escreveu isso?).
Então? Ainda alguma dúvida sobre a validade do ditado que dá nome a este texto?
Então, cá vai a pérola que, se fosse escrita por qualquer outra pessoa seria digna de marcar eternamente os anais da história humana (ao qual nem preciso comentar):

Penso que o denominador comum de todos estes problemas é a distância entre os valoros religiosos, éticos e espirituais. Com tal distância entre valores éticos e espirituais, dignidade humana, amor e bondade — que são os elementos comuns de todas as grandes religiões abraâmicas — e a moral humana e as realizações materiais e cívicas foram postas em causa. A melhor forma para evitar o fim é a ênfase em valores comuns e o desejo natural de todos os seres humanos pela perfeição, benevolência, justiça, irmandade e bondade. Esses valores podem ajudar-nos a descobrir soluções para todos os problemas que a humanidade enfrente. Paz e segurança globais e sustentáveis serão realizados somente pelo estabelecimento da verdadeira justiça e irmandade. Como poderemos esperar alcançar a paz e a segurança sustentáveis humilhando os demais e agindo em formas que se afastam dos valores éticos e espirituais?


Boa pergunta: resta saber se o Sr. Presidente Ahmadinejad, suposto autor do texto, saberia responder!!!

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