segunda-feira, dezembro 17, 2007

Uma década de conversão de dor

Quando há exatamente quatro anos acabei a minha licenciatura em psicologia, a sensação era estranha: a responsabilidade estava perante mim; a responsabilidade, o outro lado da moeda da liberdade. Quando há uns meses, duas supostas amigas minhas viram-me a falar com um sem-abrigo e gozaram comigo, foi esse sentimento que me regressou à mente: a responsabilidade. Claro que não me sinto responsável sobre o destino das outras pessoas, mas tenho a responsabilidade sobre o meu próprio destino e a forma como decido interagir com o destino dos demais. Eu decido o que sou, decidi quem fui, e decidirei o que fazer no momento seguinte: mais ninguém tem esse poder!

As circunstâncias e condicionantes da vida lá estão, circunstanciando e condicionando-me. A saúde, a sociedade, a matriz cultural: estão todas lá, e com elas eu faço o que quiser.

Noutro post, há já uns meses, citei Frankl que dizia que “Somente a atitude e a volição permitem-lhe dar testemunho de algo que só o homem é capaz: de transformar e remodelar o sofrimento a nível humano para convertê-lo em um serviço”.

E vejo que o sofrimento é um exemplo através do qual podemos crescer. Diz Frankl que há três vias para encontrarmos sentido em nossas vidas. A primeira através da obra criada, a segunda através do amor experenciado e a terceira aí onde o sofrimento se converte em oportunidade, na oportunidade de servir de mudança da lei, de servir de fiscalização do sistema, de consciência pública, de exemplo para outras pessoas.

Neste sentido, Odele Souza é um exemplo. Uma extremosa mãe que converteu a tragédia da sua filha Flavia no catalisador de uma nova perspectiva da realidade. Recusando-se em ruminar na tristeza do coma vigil de sua filha, converte-se num exemplo de luta e apelo. O seu blog é o espaço que, com média de visitas superior a 200, visa, sobretudo, fazer com que “o exemplo de Flavia, possa servir para evitar novas tragédias e que a solidariedade de vocês possa acordar nossa Justiça em coma. Este, profundo”.

O que se pretende fazer é aquilo que Frankl dizia: encontrar o sentido, onde ele parece não querer ser encontrado, encontrar o sentido na prevenção de novas tragédias e no despertar da Justiça.

E me pergunto: se eu, psicólogo faz hoje quatro anos, não me preocupar com a dor de uma mãe cuja filha mais nova está em coma há cerca de uma década, com quem me preocuparia?

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8 Comentários:

Blogger Cármen Neves disse...

Sam - Comentarei o texto mais tarde. só passei para te dizer que a resposta ao teu desafio está no meu post de hoje. Se tiveres mais "desafios" estou pronta. risos Um abraço

17 dezembro, 2007 15:10  
Blogger Odele Souza disse...

Sam,
Muito obrigada por sua participação na Blogagem Coletiva de Flavia. Muito obrigada por este post.

Fique com nosso carinho.

17 dezembro, 2007 17:45  
Blogger Neptuna disse...

lindo este teu balanço de 4 anos. é por estas e outras reflexões tuas que sou uma previligiada em ter um amigo como tu. um abraço apertado.

18 dezembro, 2007 09:45  
Blogger Pat disse...

Sam,
Muito lindo esse post!
Ser capaz de enchergar razão no sofrimento é algo muuuuito difícil, mas sabemos que existe.
abraço
pat

18 dezembro, 2007 13:21  
Blogger Cármen Neves disse...

Sam - Um novo post eu publiquei em razão do teu comentário.
Quanto ao teu texto, terei, infelizmente e novamente voltar amanhã. Mas, prometo que retorno, tá?! risos Um abraço,

18 dezembro, 2007 19:26  
Blogger Cármen Neves disse...

Oi Sam! Como para mim promessa é dívida, estou aqui. Li o texto e esta mãe está de parabéns, porque realmente é uma situação difícil. Quando eu passo por dificuldades, sempre penso no lado bom e, tiro do acontecido aprendizado. Então és um psicólogo!! Eu quis fazer psicologia, mas na época eu teria que parar de trabalhar. Como precisava( e preciso)trabalhar, não puder fazer.Uma pena, mas... Um abraço.

23 dezembro, 2007 15:28  
Blogger Odele Souza disse...

Sam,
Agora, já mais tranquila após a correria da Blogagem Coletiva de Flavia, estou "passeando" pelos blogs que escreveram sobre a história de minha filha.Aqui e acolá me detenho em algum texto que me chama a atenção pela forma como aborda o assunto. Gosto dos textos que tratam a história de minha filha sem conotação sensacionalista, e não me tratem como se eu fosse uma coitada, pois coitada não sou.

Sam, obrigada pelo conteúdo de seu texto, pela forma competente como você coloca a questão. Manifestações como esta sua, são um incentivo à minha luta, ao meu repúdio à negligência impune, e ao meu protesto contra uma justiça que de tão lenta já se tornou injusta.

Gostaria de continuar contando com
você em 2008, para me apoiar com textos como estes que induzem à reflexão, uma importante etapa da ação!.

Deixo aqui com você, minha gratidão e carinho.

Muito obrigada.

26 dezembro, 2007 03:57  
Blogger SaM disse...

Eheheh.. Outro sam...
Estava a ver o blog da lavanderia virtual quando pensei estar a ler um comentário meu que não me lembrava ter executado. =P

Ora pois então vim aqui espreitar. Não é que fique apaixonado pelo seu blog?
Lindo... Jamais conseguiremos compreender, a dor de uma mãe cuja filha mais nova se encontra em como há 10 anos, mas poderemos ser a chave de um consolo, um aconchego...


Já agora todos somos seres sociais, e como tal agimos com total liberdade dentro da nossa esfera, sem poder perder a noção da esfera do Outro. Porque a nossa liberdade termina quando começa a liberdade do outro...
Assim somos livres de fazer todo e qualquer acto que não interfira com a liberdade do próximo.••Abraço•

Votos de um óptimo 2008

Cumps
SaM

p.s Reparei que o outro comentário exactamente igual a este se encontrava com erros ortográficos, pelo qual peço imensas desculpas! Vindo assim rectificar os erros…

27 dezembro, 2007 23:18  

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