quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Uma multidão alvoraçada gritava “Will, Will, Will”...

Uma multidão alvoraçada gritava “Will, Will, Will”, flashes batiam, meninas gritavam e seguranças observavam.

De longe, lá estava ele, a estrela do momento (deste e de tantos outros), Will Smith saindo de uma ante-estreia europeia em Londres, sorrindo numa foto que ele mesmo estava tirando com uma de suas fãs, enquanto a multidão tentava obter mais uma foto, um autógrafo, um toque, qualquer coisa.

Impressionante como nos entusiasmamos com actores e cantores, mas não bradamos "Saramago, Saramago", "Pamuk, Pamuk" ou "Annan, Annan" se cruzarmos com eles na rua. Vi Saramago na Feira do Livro de Lisboa há um par de anos, e estava sentado em sua cadeira, esperando que algum possível fã se aproximasse e pedisse, talvez, um autógrafo. Quanto a Pamuk, se o visse, possivelmente nem o reconheceria, quanto mais lhe pediria um autógrafo ou uma foto com ele.

Talvez eu esteja enganado, mas acredito que a maturidade da humanidade virá quando tratarmos de igual forma as estrelas (cadentes) do cinema e da música com as outras estrelas e astros que lutam pelo bem-estar da humanidade, através de suas ideias e pensamentos, ou suas atitudes e ações.

Gritando por eles? Não! Montando aparatos de segurança quando eles passarem? Não! Ao invés, quando Will Smith for tão comum como qualquer um de nós e Koffi Annan for tão humano como nós e deixarmos de pensar no panteão celeste e os convidarmos a serem humanos, sem distinções e sem cânticos exagerados da multidão.

Até lá, só me resta, tentar tirar uma foto de Will Smith…
Will Will Will Will Will…

(fotos à esquerda: Hércules, a estrela da antiguidade "clássica").
(foto à direita, da esquerda para a direita: Socrátes, Antistefenes, Crisippos e Epícuro, pensadores da anitguidade "clássica").
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Londres, carros, futuro: 20 horas de trabalho por semana
Tempo: o dom mais precioso
Restaurante chamado Tradição
Aviões são prova da existência da alma
Dia Humanitário Mundial, o dia de Sérgio Vieira de Mello
Ainda bem que não evitaste a crítica, Sr. Mandela

Mais um que se vai, deixando-nos a fantasia de o que poderia ter sido...

Uma década de conversão de dor
Campeão sem acaso
Quando o medo se converte em livro

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quarta-feira, janeiro 28, 2009

Londres, carros, futuro: 20 horas de trabalho por semana

Em Londres tive a oportunidade de ver carros que sabia que existem e que nem sonhava ver em vida, ou carros que nem sonhava que existiam. As marcas mais caras de carros foram passando por mim, ao longo dos dias.

Uma limusina branca enorme com vidros duplos passando à minha frente, um Lamborghini amarelo ao fundo da rua, um Lotus acelerado e outro com dificuldade de passar entre um camião estacionado e uma parede há mínimos metros de distância, um Aston Martin parado para os pedestres passarem, um Ferrari estacionado e um Porsche com a capota fechada pelo frio, e carros cujas marcas não conhecia, não conheço e/ou nem reconheci…

Carros de todos os tipos e gostos que fazem pobres coitados de um Lexus, um Mercedes ou um BMW. Mas, não deixam de ser carros. Motor de qualidade, bancos ergonómicos, bons mecanismos de segurança fazem os carros serem carros. Mais que isso é um mero luxo, uma mera necessidade de mantermos um estilo de vida capitalista.

Com as máquinas que existem, ao invés de criarmos luxos para nos exibirmos e provarmos o nosso status, teremos instrumentos que diminuíram as nossas horas de trabalho, mas não reduzirão os empregos.

Imagine-se num futuro aonde só trabalharemos 20 horas por semana, o mínimo e necessário, não para subsistir, não porque o salário é excelente para todos, mas porque o sistema capitalista faliu a tal ponto que percebemos que trabalhar é adoração, é um prazer que se faz por gosto, e uma necessidade para manter a humanidade funcionando.

É para isso que deveríamos trabalhar: não para viver, mas porque é um serviço que fazemos à coletividade, a todos. É um serviço que prestamos, não um esforço que fazemos para ter dinheiro, para o poder gastar em dívidas que foram criadas para termos os excessos e não os necessários.

Pensemos nisso: o que irá acontecer ao dinheiro?
Viveremos num mundo aonde o dinheiro existirá ou deixará de existir? Será que chegaremos ao ponto no qual não nos comparamos através dos carros que temos, mas pelas pessoas que somos? Será que viverei para ver esse dia chegar? Será?

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Tempo: o dom mais precioso
Restaurante chamado Tradição
Aviões são provas da existência da alma
Dia de Ação Blogal: pela eliminação da pobreza Global
Capitalismo ou Solidariedade - a opinião sobre as Empresas Farmacéuticas (2)
Capitalismo ou Solidariedade - a opinião sobre as Empresas Farmacéuticas (1)

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segunda-feira, janeiro 26, 2009

Tempo: o dom mais precioso

Se há uma coisa imparável, é o fluxo do tempo: o rio do tempo flui sem parar e, façamos o que fizermos, a cada quinze minutos o Big Ben de nossas vidas irá soar. Não há nada a fazer! Vivemos, crescemos, envelhecemos. Esse é o processo.

Cosméticos e cirurgias só irão mascarar a realidade do tempo. Cuidados com a saúde irão permitir melhor aproveitamento do tempo, mas o tempo irá passar e nenhuma força da natureza o poderá impedir.

Quando passei pelo Museu Britânico, em Londres, notei que tinha, há pouco tempo, inaugurado uma nova sala de exposição dedicada a relógios de diversas formas e aspectos (um deles é o da imagem ao lado).

É impressionante como, desde os nossos primórdios enquanto espécie, preocupamo-nos com a gestão do tempo. No entanto, enquanto pessoas comuns, esquecemo-nos de coordenar as coisas e dizemos sempre que estamos “com falta de tempo”!

Mas o tempo não escasseia, nos é que o vamos perdendo.

Perdemos um ano, porque reprovámos na escola.
Sofremos um mês, porque o nosso filho nasce prematuramente.
Corremos uma semana, porque somos editores de um semanário.
Contamos os minutos da hora, porque iremos encontrar o amor de nossas vidas.
Amaldiçoamos o minuto, porque perdemos o transporte público.
Seguimos vivos, estupefactos com o segundo que nos salvou do acidente.
Abençoamos o milisegundo que deu a vitória naquela maratona.

Façamos o que fizermos, não há tempo a perder, nem lugar para vacilações. A vida vai passando, o tempo correndo, a existência fluindo. Bem-aventurados aqueles, dentre nós, que utilizam o passado, para agir no presente criando um futuro com sentido.

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Restaurante chamado Tradição
Aviões são provas da existência da alma
Rumi - Divan Shamsi Tabrizi
Omar Khayyám - Rubáiyat (XXVIII)
Rumi - "Estas preces e guerras santas e jejuns"

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quinta-feira, janeiro 22, 2009

Aviões são provas da existência da alma

Toda vez que vou viajar de avião fico maravilhado com a capacidade humana. Digam o que disserem o avião é a prova viva de que o ser humano não é apenas um animal: temos uma alma, alma racional!

Nós somos dotados de consciência, volição, ideação, reflexão consciente e inteligência coisas que o reino animal não possui. Ora, como é que podemos pertencer a um grupo se possuímos coisas que não existem nele?

Há alguns dias estive ausente, tendo a oportunidade de viajar para Londres num voo de duas horas e meia e não pude deixar de pensar que essa era a maior prova da existência da nossa alma.

Como animais deveríamos estar vivendo sobre a terra, andar sobre ela e nela sentar, mas a nossa alma é capaz de escapar das regras da natureza e de suplantar a todos os animais da terra. Somos, tanto quanto sei, a única espécie capaz de criar civilizações que fogem dessas leis naturais. Criamos os barcos e andamos sobre o mar. Criamos submarinos e mergulhamos nas profundidades do oceano. Construimos aviões e voamos pelos céus. E não somos nem anfíbios, nem peixes, nem aves.

Somos iguais aos animais nas nossas capacidades físicas. Aliás, os animais até, por vezes, são bem mais evoluidos que nós na visão ou na audição, por exemplo. Mas o poder do nosso espírito é incomparável, podendo desvendar todos os mistérios do universo.

Através do poder da alma, diz 'Abdu'l-Bahá, podemos “apreende[r] as idéias universais e traz a lume os segredos da criação”, bem como as “idéias abstratas e universais”.

Ele diz mais:
A mente é o poder do espírito humano. O espírito é o foco; a mente é a luz que dele irradia. O espírito humano é a árvore e a mente o fruto. A mente é a perfeição do espírito, é sua qualidade essencial, assim como os raios solares são uma necessidade essencial do sol.

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quinta-feira, novembro 27, 2008

Cinco anos, cinco dias e um amigo a menos

Há cinco anos atrás, um amigo caminhava sobre as ondas perdidas do mar espiritual. Caminhava para o Destino final de todos nós; simplesmente acelerou o passo.

Num carro, com amigas, ia Pedro Pinto, a 22 de Novembro de 2003, finalista de um dos cursos do Departamento de Letras Clássicas e Modernas, amigo prestimoso e querido. Raras são as pessoas que, ao longo da vida, fazem amigos e mais amigos a cada sorriso, a cada olhar, em cada brincadeira. E o Pedro era uma dessas raridades!

Detentor de uma sensibilidade inequívoca, capaz de compreender sutilezas que poucos compreenderiam, ao mesmo tempo que mais ingénuo do que poderia ser, Pedro estará hoje no panteão divino, olhando, do mais alto, os seus amigos que deixou para trás, simplesmente, porque a sua missão é, agora, preparar-nos o caminho. Quando lá chegarmos, a Sara, a Luísa, o Paulo, a Catarina, o Marcos, o Nuno e tantos outros, lá estará ele, com as pipocas, temperadas com as mais belas virtudes, prontas para nos deliciarmos ante os filmes de outras vidas, ante o futuro que caminharemos juntos.

E todos os filmes que não produziu em vida, todos os livros que não leu em vida, e todas as paixões que não teve ou que não aproveitou, e todas as aulas que não deu, e toda a espiritualidade que não transmitiu aos demais estarão a ser vividos, hoje, cinco anos e cinco dias depois, e amanhã e depois de amanhã e eternamente, pois o nosso Pedro não foi mais cedo que nós, simplesmente para não mais voltar. Foi, mais cedo sim, mas para nos servir de anjo de guarda até nós lá chegarmos.

Obrigado por seres uma das estrelas que ilumina a nossa negra noite.
Obrigado por nos continuares a sorrir, ainda que não mais estejas entre os vivos.

De 22 de Novembro até sempre, meu amigo!

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Académica do Algarve de Luto
Sting - Quando os anjos tombam
Mensagem de Júbilo

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quarta-feira, agosto 27, 2008

Tipos de pessoas e as paredes...

Ontem tive uma conversa com um dos meus mais antigos amigos e, com base naquilo, pude concluir que existem vários tipos de pessoas.

As pessoas paredes que são imóveis e são de dois tipos: das paredes que ouvem e nada fazem e que só servem para que nelas nos apoiemos e as paredes que de tão ríspidas e desagradáveis nem para encostarmos nelas servem.

Depois há uma panóplia de pessoas: as preguiçosas que se encostam em qualquer uma das paredes, as vítimas da sociedade que se encostam nas paredes ríspidas e reclamam dela, as aproveitadoras que tentam escalar as paredes calmas e de apoio, as medrosas que temem que ambas as paredes lhes caiam em cima, as aventureiras que só querem saltar a parede ríspida e... aquelas, cada vez mais raras, as sagazes:

Dotadas de capacidade de observação ajustada da realidade e capacidade de rápida análise tais pessoas são capazes de discernir, prontamente, uma parede da outra e, por seus dotes de perspicácia, sabem que devem transcender os obstáculos que as paredes ríspidas demonstram ser e descansar sobre o regaço da outra parede.


Qual dessas pessoas você acha ser?

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terça-feira, abril 01, 2008

Da Juventude, dos Oscars e do Mundo

Depois de ter visto os Oscars, há já mais de um mês, com prémios que concordei, que gostei, que desgostei, mas que em nada alteraram a minha vida, houve um pequeno detalhe dos meus pensamentos que gostaria de compartilhar.

Quantos de nós já tinham ouvido falar em Diablo Cody?

Pois bem, não tenho nada a declarar sobre o recorrente bom gosto e mau gosto de alguns atores e atrizes, nem sobre a bela homenagem final a Heather Ledger, que morreu por mistura de medicamentos, mas quero falar de Diablo Cody, que não, não é o nome de nenhum filme de terror classe B.

É uma menina jovem de 29 anos que ganhou o meu Oscar favorito, o de melhor guião/script original. Foi ainda nomeada para a BAFTA e uma série de outros prémios pelo mesmo filme: Juno.

Tampouco vem ao caso aqui falar do filme! O filme é bom! Não tenho dúvidas. Fala acerca das dificuldades de uma adolescência absurda e irresponsável, quando tem que enfrentar uma gravidez que surge por mera idiotice de um casal de "namorados".

O que eu gostaria mesmo de salientar é que a escritora poderá fazer parte de um novo panorama mundial. No cinema, nas várias formas de cultura, de liderança e nas mais variadas ciências, a juventude começa a mostrar que move o mundo.

É, sem sombra de dúvidas, o poder da juventude contribuir de forma significativa na moldagem de uma nova sociedade. As suas palavras, atitudes, ausência de preconceitos, nobreza de pensamento, que rejeitam a mediocridade poderão permitir que a atmosfera seja recriada e elevada.

A galardoada Cody deixou de lado uma vida que não poderia ser exemplo para ninguém para se converter num possível exemplo para muitos. Dominando tecnologias da comunicação, ela poderá, como muitos outros jovens, ajudar aos demais na transmissão daqueles atributos humanos que marcaram o passado e marcam o nosso presente. As transformações do futuro, em grande medida, dependem da preparação efetiva e eficaz nas novas gerações.

Assim, espero ver mais e mais jovens, talentosos, competentes e dignos de elogios e apreciações, como ela o é hoje!
É com a juventude que se pode esperar novos resultados. Sempre dignos de serem chamados para este ou aquele posto, para exercer esta ou aquela função, pois a juventude é dotada de uma imaginação ímpar e de uma capacidade invulgar de a converter em ação: a juventude pode mover o mundo!

Nunca vi um guião tão cuidadoso e perfeito e, não só me parece que ela merecia o prémio, como acredito, agora que vi o filme, que qualquer pessoa poderá marcar a diferença, se apenas o desejar!

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sábado, março 15, 2008

Contra o mapeamento dos mapeadores

Ontem era, supostamente, o dia da Blogagem Coletiva "contra mapeamento do cérebro em jovens infratores", mas, não sabendo o que aconteceu, não vi a sua repercussão pela Internet.

A ideia surgiu do CanalPsi Revista, um blog brasileiro e de qualidade cujo principal interesse parece ser a promoção de atividades diversas no campo da Psicologia. Na nota de repúdio promovida pelo mesmo espaço pode-se ler:

A notícia de que a PUC-RS e a UFRGS vão realizar estudos e mapeamentos de ressonância magnética no cérebro de 50 adolescentes infratores para analisar aspectos neurológicos que seriam causadores de suas práticas de infração nos remete às mais arcaicas e retrógradas práticas eugenistas do início do século XX.

Os investigadores defendem o seu estudo, dizendo que se trata de localizar as regiões cerebrais cuja atrofia tem reduzido a capacidade de conter/controlar os seus impulsos/instintos e, com base nos resultados, poder procurar alternativas de prevenção e de cura.

O campo de batalha começa aqui. A polémica se instaura. Acusam os investigadores, Jaderson Costa Dacosta e Renato Zamora Flores, de terem ideias semelhantes a de Cesare Lombroso, frenólogo, que pretendia descobrir o tamanho do crânio dos criminosos natos, aproveitando para acusar também um homem cuja ciência que conheceu era a do Século XIX. Já Ivan Izquierdo, defendendo a investigação, compara a crítica social ao “melhor estilo da Espanha da Inquisição, da Alemanha de Hitler e da Rússia de Stalin”, que criticava antes de se poder ver as utilidades do caso. E a discussão e os sarcasmos e ataques de ambos os lados não param por aí!

Segundo o CanalPsi, muitas são as personalidades e entidades que se insurgem contra a investigação, pelo que entendo, porque tais praticas investigadoras reduzem o ser humano a meras conexões neuro-biológicas, esquecendo de outras dimensões humanas assim como o contexto social e cultural.


De facto, uma visão apropriada da Psicologia necessita, diria Ludewig, de “um conceito global” de ser humano, no qual se “tenha em conta ao ser humano na sua dinâmica” total e completa. É necessário estarmos cientes de que o ser humano não se reduz a um ou outro aspecto da sua existência, mas à sua totalidade. Frankl dizia que:

Um radiologista vê também correctamente quando numa radiografia vê ao homem como se não se tratasse de uma pessoa, senão só de um esqueleto. Mas nenhum radiologista ponderaria afirmar que o homem se compõe só de ossos, mas sabe que em realidade existem também outros tecidos.

Por isso, acredito que os autores do estudo, cujos currículos e instituições falam por si, saberão evitar cair no erro de deixar de refletir, e saberão evitar a coisificação do ser humano. Os reducionismos biológico, psicológico ou sociológico são todos reduções do ser humano a um homúnculo. Qualquer visão que diga que o ser humano é resultado do cérebro, resultado da educação e das cognições ou resultado do meio, implicaria uma visão unilateral, unidimensional, resultando numa imagem deformada fazendo dele um homúnculo, um homem incompleto, em miniatura: uma redução do homem a algo ou a uma parte.



Mais ainda; acredito que a investigação em causa faz-se útil, e a luta contra ele, sob uma alçada de defesa pelos Direitos Humanos, faz-se incoerente. Pessoalmente, como defensor dos Direitos Humanos e como psicólogo, não vejo a relação entre uma coisa e outra. Imagino apenas se os esforços dessas pessoas estivessem canalizados para a situação atual na China, no Irã ou no Iraque... como a paz universal poderia nos chegar mais rapidamente! Imagino como seriam estes esforços se promovesse atividades de inserção social e promoção de equidade social no Brasil, luta enfática e sistemática contra os preconceitos, o incentivo da educação infantil e juvenil no país, a luta contra a violência doméstica, contra o trabalho escravo e tantas outras causas sociais dos direitos humanos que oprimem esta nobre nação. Se assim fosse, como poderia ser mais justa a sociedade brasileira!

A minha proposta, deixemos os radiologistas do cérebro fazerem o trabalho deles! E façamos nós o trabalho pelos Direitos Humanos.

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segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Uma aula com Viktor Frankl

Viktor Frankl é o fundador da Logoterapia e, o vídeo que se segue, é um de meus favoritos.



A tradução completa, por mim, a partir do original inglês:

Querem fazer muito dinheiro. Na Europa, todo estudante americano
e todo adulto americano é tido como alguém que está aí para fazer muito dinheiro.
Realmente, 16%, 16% desses estudantes
mencionam que o seu principal objectivo e preocupação de vida
é fazer muito dinheiro – e cito-o literalmente:
fazer muito dinheiro.
E sabem a classe de topo, a categoria de topo
categoria, categória, como é que dizem? –
categoria era... – desculpem-me, sei que falo com um maravilhoso
sotaque sem o mínimo inglês.
Sabem qual foi a categoria de topo?
78% destes jovens americanos estavam preocupados,
como se expressaram, com encontrar um sentido e um propósito
para as suas vidas.
Então, é uma visão realista do homem.

E sabem? Não vão acreditar. Cabelo grisalho...
A minha idade... Comecei a ter aulas de aviação.
E sabem o que o meu instrutor de voo me disse?
«Se começarmos aqui e quisermos chegar aqui,
digamos Este, dirigidos para isso e tivermos um vento contrário,
seremos levados, e aterraremos aqui e
teremos fazer aquilo que nós pilotos chamamos crabing (C-R-A-B).
Temos que dirigir-nos a Norte desta base aérea e teremos que voar
naquele sentido, como se nos dirigíssemos àquela direção.
Se nos dirigíssemos para aqui, por cima desta base aérea então,
realmente, aterraríamos aqui. Mas se formos para aqui, aterraremos aqui.»
Isto também se aplica ao homem, eu diria.
Se tomarmos o homem como ele realmente é, fá-lo-emos pior.
Mas se o sobrestimarmos...
É prematuro, o vosso aplauso, e em breve saberão porquê...
se parecermos idealistas e sobrestimarmos, sobrevalorizarmos
o homem e olharmos para ele daqui de cima, sabem o que acontece?
Promoveremos nele aquilo que ele pode realmente ser,
portanto temos que ser idealistas de certa forma.
Então encontraremos a verdade do real realista.
E sabem quem disse isso?
«Se tomarmos o homem como é, fá-lo-emos pior,
mas se tomarmos o homem como ele deveria ser,
fá-lo-emos capaz de tornar-se o que ele pode ser...»
Isso não foi o meu instrutor de voo, não fui eu,
foi Goethe: ele disse isso verbalmente.
E agora irão entender porque num dos meus escritos
disse, certa vez, que esta é uma das maiores máximas
e motes de qualquer actividade psicoterapêutica.
Então, se não reconhecermos a vontade de sentido de um jovem,
a busca de sentido do homem, fá-lo-emos pior,
torna-lo-emos aborrecido, frustramo-lo e ainda
contribuímos continuamente para a sua frustração.
Enquanto que se pressupormos que este homem,
este alegado criminoso ou delinquente juvenil
ou toxicodependente, e por aí em diante, deve ter uma...
como se diz... faísca, sim, faísca de busca de sentido:
vamos reconhecê-lo, vamos pressupô-lo e, então,
iremos extraí-lo dele e fá-lo-emos transformar naquilo
que ele, em princípio, é capaz de se transformar.

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quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Hoje vi um tucano

Viajando pelo Brasil, lá pelos lados de Palmas, a cidade de avenidas que nunca mais terminam, vi um tucano voando, lá, no alto dos céus.

Não me recordo de alguma vez ter visto algum desses pássaros voando, talvez nalgum zoo esquecido de minha memória tenha visto um, mas não voando. Não o creio!

Estava ele voando sozinho, como que buscando algum rumo, sem saber bem para onde ia, foi, saiu de minha vista, voando.

E vendo-o voar, pensei se seria esse o meu destino: voar, sem saber bem para onde; ou voar aonde os ventos do Destino me levam; ou, ainda, voar decidindo o local de pouso.

Sim, porque parar e descansar não é hábito meu; ficar esperando o destino chegar não é para mim! Como diria um amigo meu, mais vale a vida do pássaro.

Ir-me-ei abrir ao vento, anelar a vida, a elevação da humanidade, o desenvolvimento espiritual, a promulgação da paz universal e a proclamação humanida! Esta quero que seja a minha tarefa!

Ainda mais ideal é a vida do pássaro. Um pássaro, no cume de uma montanha, nos altos ramos oscilantes, constrói para si próprio um ninho mais belo que os palácios dos reis! O ar é extremamente puro, a água fresca e transparente como cristal, o panorama atraente e acolhedor. Em tal glorioso ambiente, ele passa seus limitados dias. Todas as colheitas das planícies são suas, tendo conseguido todas essas posses sem o menor esforço. Por conseguinte, não importa o quanto o homem possa progredir neste mundo, não atingirá ele a condição do pássaro! Torna-se evidente, pois, que no que tange as coisas deste mundo, ainda que se esforce e trabalhe até a morte, não será ele capaz de conquistar a abundância, a liberdade e a vida independente de um pequeno pássaro. Isto vem provar e estabelecer o fato de que o homem não foi criado para esse mundo efêmero – foi criado, sim, para a aquisição de infinitas perfeições a fim de atingir a sublimidade do mundo da humanidade, aproximar-se do limiar divino e sentar no trono da soberania sempiterna!

Quero ser aquele tucano que vi, mas não creio que o venha a ser! Porque, afinal de contas, mais vale a vida do humano.

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sexta-feira, dezembro 28, 2007

Arranje coragem: Venda a vaca!

Lá para os confins do Tibete, perdida no meio do aparente nada, vivia uma família muito pobre. Num casebre decrépito sobreviviam, um homem-pai cansado e triste, uma mulher-mãe vergada pela dureza do dia-a-dia e muitas crianças-filhos, magrinhas, sujas e descalças, sempre doentes e com fome e uma vaca tão magra que mais parecia… não há termos que a definissem!

Um dia igual a tantos outros, passou por ali um monge e o homem apressou-se a cumprimentá-lo numa vontade urgente de mundo e esperança.

- Olá monge! Tu que és tão sábio e corres o Mundo, podes dizer-me o que hei-de eu fazer para melhorar esta minha difícil e triste vida, bem como a da minha família? – perguntou o homem com um suspiro.

O monge olhou para o homem-pai, para a família, para o casebre e depois fitou o horizonte.
- Vende a vaca…! - disse ele.
- A vaca?! Não posso! – lamentou-se incrédulo o homem.
- A vaca é o meu único sustento! Com ela posso arar o campo, quando calha ter forças…, posso fazer manteiga e… o leite! Depois é que fico sem nada! Não posso vender a vaca!!

O monge olhou com doçura para o homem (sem condescendência…) e repetiu:
- Vende a vaca…
E partiu pelo Mundo em direcção ao horizonte.

Passaram cinco anos, acho eu, ou podem ter sido apenas três.
O monge sempre em direção ao horizonte voltou a passar ali perto.
A impermanência da vida faz com que apesar de às vezes a vida parecer circular, na realidade é experienciada de forma diferente e por isso sempre na direção do horizonte.

O homem assim que avistou o monge correu até ele.
- Olá monge! – saudou-o com alegria.

O monge reconheceu então o homem-pai, agora alegre, corado e bem vestido. Olhou e viu uma bela casa, a mulher-mãe contente e tranquila que abraçava os jovens-crianças-filhos que chegavam da escola, numa bela carroça puxada por dois belos cavalos. Viu também os campos lavrados em volta da casa e um trator.
- Fico contente de te ver e à tua família tão bem, felizes e com saúde! Afinal o que é que aconteceu que originou tão grande mudança? – perguntou o monge sábio na serenidade de quem sabe a resposta (sem soberba…).

- Arranjei coragem e vendi a vaca! – riu o homem.

- Depois… como deixei de ter a única medida que afinal de contas só me trazia tristeza… olhei para o horizonte e fui à procura da minha felicidade.

Este foi um texto que li, já não sei aonde, se por email, se num livro, se encontrei nalgum site. Não me lembro! Sei apenas que a história é belíssima.
E, por ela, pergunto-me, será que serei capaz de vender a minha vaca e iniciar um novo ano de felicidade, saúde e prosperidade?
Será que seremos capazes disso?

O texto acabava com a frase:

Vai correr tudo bem, tem que correr. É só precisa coragem para vender a vaca.

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quarta-feira, dezembro 26, 2007

Ocidente V Oriente

Não creio que possamos dicotomizar a humanidade, no entanto, ao receber, via email, estas figuras de Yang Liu, pensei muito sobre o tema. As imagens com fundo azul são a realidade ocidental, enquanto que a oriental tem fundo vermelho.

O líder: No Ocidente tendemos a achar que o líder é uma pessoa semelhante aos demais, mas com algumas competências acrescidas, enquanto que no Oriente o líder é o senhor supremo do conhecimento? Quem diz isso é que não conhece alguns ditadores laborais que eu conheço...

Influências do tempo:
Verdade seja dita, os ocidentais sabem ser miseráveis em qualquer tempo...

Avançando na idade:
É a solidão que nos faz adquirirmos animais de estimação ao invés de brincarmos com os nossos netos?

Transporte:
Essa é a imagem que mais me faz pensar: enquanto no Ocidente ganhamos a consciência da necesssidade de não poluir, utilizando meios de transporte não-poluentes, os orientais começam a ter capacidade de adquirir meios de transporte que os permite ir a locais cada vez mais distantes de forma cada vez mais cómoda.

Refeições:Não me parece! Afinal de contas o que um alemão ou um inglês come pela manhã me dá tantas voltas ao estômago, como os peixes que alguns orientais tendem a comer na mesma refeição...

Obstáculos:Não tenho dúvidas de que um buraco é para ser contornado e não sobrepassado. Depois quando caímos nele, perguntamos como é que foi possível!

Viagem ao exterior:
Os japoneses são mesmos do fundo vermelho, mas, também, têm mais tecnologias que nós!

No restaurante:Quem acha isso é porque nunca esteve em Portugal, na Itália ou em Espanha...

Festas:
Qual será a melhor versão?

Filas:
Sim, sim, iden meu comentário do restaurante!

Raiva:Quem acredita que um oriental é mais dissimulado que um ocidental, não interpretou bem a imagem. Acho que um oriental sabe gerir melhor as suas emoções que a maioria dos ocidentais.

Rede social:A não ser que seja uma rede social de burocracia, acho que vou concordar com essa imagem...

Pontualidade:Não conheço muitos ocidentais pontuais, mas se quiserem mesmo acreditar nisso... Na Itália todos chegavam antes da hora, em Portugal todos chegam depois da hora e em Espanha são pontualmente atrasados... Sim, na Alemanha o pessoal que chega meio segundo mais tarde nem entra, é verdade, mas a Alemanha não é todo o Ocidente (e olhem lá que nem falei da América Latina que está no Ocidente!).

Estilo de vida:
Somos, de facto, mais reservados que os orientais. Gostamos ou fingimos gostar dessa coisa chamada "solidão". Eles, por sua vez, sabem que a realidade humana é uma realidade vivencial de relações com os outros.

Opinião:Qual é a sua?

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sábado, dezembro 22, 2007

Uma prece!

Para uma época festiva, acho que poderíamos estar atento a outras religiosidades que tanto nos podem ensinar. O texto que se segue é uma prece não-cristã, que poderia ser lida em qualquer festividade espiritual.
Feliz seja o que for que queiram celebrar! O importante é que sejam felizes e encontrem sentido nessa felicidade!



Teu servo serve, e oferece preces.
Por favor, deixe-me sentar ao Teu lado, e unir-me Contigo.
És o outorgador da paz a todos os seres; por perfeito karma, meditamos acerca de Ti.
Castidade, verdade e auto-controlo vêm da prática e vivência da Verdade.
Esta mente se torna imaculada e pura, cantando os Louvores de Glória do Senhor.
Neste mundo de veneno, o Néctar Ambrosial é obtido, se apraz meu Querido Senhor.
Ele somente entende, quem Deus inspira a entender.
Cantar os Louvores de Glória do Senhor, o nosso ser interior é despertado.
Egotismo e possessão são silenciados e subjugados, e instintivamente encontramos o Verdadeiro Senhor.
Sem bom karma, outros incontáveis deambulam.
Eles morrem, e morrem novamente, apenas para renascer; não podem escapar ao ciclo do regresso.
Imbuídos de veneno, praticam veneno e corrupção, e jamais encontram paz.
Muitos disfarçam-se com trajes religiosos.
Sem o Shabad, ninguém conquistou o egotismo.
Aquele que permanece morto ainda que vivo é liberto, e emerge no Nome Verdadeiro.
Ignorância espiritual e desejo queimam este corpo humano.

Trad. de Sam do inglês de
Shri Guru Granth Sahib
Secção 25 - Raag Maaroo.

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segunda-feira, dezembro 17, 2007

Uma década de conversão de dor

Quando há exatamente quatro anos acabei a minha licenciatura em psicologia, a sensação era estranha: a responsabilidade estava perante mim; a responsabilidade, o outro lado da moeda da liberdade. Quando há uns meses, duas supostas amigas minhas viram-me a falar com um sem-abrigo e gozaram comigo, foi esse sentimento que me regressou à mente: a responsabilidade. Claro que não me sinto responsável sobre o destino das outras pessoas, mas tenho a responsabilidade sobre o meu próprio destino e a forma como decido interagir com o destino dos demais. Eu decido o que sou, decidi quem fui, e decidirei o que fazer no momento seguinte: mais ninguém tem esse poder!

As circunstâncias e condicionantes da vida lá estão, circunstanciando e condicionando-me. A saúde, a sociedade, a matriz cultural: estão todas lá, e com elas eu faço o que quiser.

Noutro post, há já uns meses, citei Frankl que dizia que “Somente a atitude e a volição permitem-lhe dar testemunho de algo que só o homem é capaz: de transformar e remodelar o sofrimento a nível humano para convertê-lo em um serviço”.

E vejo que o sofrimento é um exemplo através do qual podemos crescer. Diz Frankl que há três vias para encontrarmos sentido em nossas vidas. A primeira através da obra criada, a segunda através do amor experenciado e a terceira aí onde o sofrimento se converte em oportunidade, na oportunidade de servir de mudança da lei, de servir de fiscalização do sistema, de consciência pública, de exemplo para outras pessoas.

Neste sentido, Odele Souza é um exemplo. Uma extremosa mãe que converteu a tragédia da sua filha Flavia no catalisador de uma nova perspectiva da realidade. Recusando-se em ruminar na tristeza do coma vigil de sua filha, converte-se num exemplo de luta e apelo. O seu blog é o espaço que, com média de visitas superior a 200, visa, sobretudo, fazer com que “o exemplo de Flavia, possa servir para evitar novas tragédias e que a solidariedade de vocês possa acordar nossa Justiça em coma. Este, profundo”.

O que se pretende fazer é aquilo que Frankl dizia: encontrar o sentido, onde ele parece não querer ser encontrado, encontrar o sentido na prevenção de novas tragédias e no despertar da Justiça.

E me pergunto: se eu, psicólogo faz hoje quatro anos, não me preocupar com a dor de uma mãe cuja filha mais nova está em coma há cerca de uma década, com quem me preocuparia?

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sábado, setembro 22, 2007

Académica do Algarve de Luto

Dizem que com a idade vamos perdendo os amigos, que é o fruto da velhice. Mas, hoje em dia, os mais novos perdemos muitos amigos, graças às nossas estradas!

Carlos Santos foi o segundo presidente eleito da Associação Académica da Universidade do Algarve e o primeiro a falecer. Aquando do telefonema que recebi, ontem, informaram-me que se tratava de um acidente na Auto-Estrada da Via do Infante: não sei se excesso de velocidade, más condições de via, irresponsabilidade de outros condutores, não sei...

Sei, sim, quem era o Carlos Santos que eu conheci. A primeira conversa que tivemos foi na estação de autocarros e, de facto (admito), em parte, surpreendeu-me! Era a altura das eleições, ele era vice-presidente da Associação e candidato a Presidente. Escusado será dizer que ganhou as eleições e cumpriu os seus dois mandatos (Janeiro de 2001 a Janeiro de 2003), comigo, simultaneamente, como amigo e causador de dores de cabeça.

Apesar de discordâncias que tivemos em vários momentos, sempre nutrimos um respeito mútuo e até uma boa relação. Eramos duas pessoas insistentes em nossas perspectivas, não haja dúvidas! Ele consultava com todos, mas a decisão tomada seria levada avante. Ouvia os estudantes, ouvia os vice-presidentes e ouvia a voz da sua consciência. Era como aquele rei que não se importava com o que as pessoas pudessem dizer nas suas costas, porque fazia o que considerava correcto. A voz da sua consciência esteve ao seu lado! Era consciente e consistente.

Tive a honra de poder conceber alguns projectos com ele. O Academismos que ele e a Zaida elaboraram e que com a minha ajuda foi consolidado. Os encontros entre os Núcleos por mim concebido e por ele, em todo momento, apoiado. A Rádio Universitária do Algarve que ele conseguiu viabilizar. O seu ressabio (como ele dizia) contra as injustiças perpetradas contra estudantes era o seu maior atributo: não tolerava professores injustos com alunos, não aceitava governos que dificultavam a vida aos estudantes e detestava ver a classe discente dividida em rivalidades internas, mas esse era o retrato do ambiente no qual havia decidido servir à Instituição.

Acabou o curso, começou a trabalhar e, alguns, de longe, como eu, aguardavam a sua ascensão no seu partido, quem sabe, daqui a dez anos, para líder de uma bancada parlamentar aonde, em nossos ecrãs, longe, diríamos: "vimo-lo a brincar aos políticos, e, hoje, já não brinca, é um político sério".

Mas, infelizmente, as estradas portuguesas ceifaram mais uma vida! Mais um amigo perdido nas estradas do Algarve, mais um jovem promissor português que desaparece, sem jamais ter deixado a sua verdadeira marca no panorama nacional. Foi-se o Carlos, fica-se a sua memória, na Universidade do Algarve e nos amigos que deixou.


Actualizações (24/09):
Hoje a missa de corpo presente em Faro será feita na Igreja da Misericórdia, pelas 12h. O funeral será realizado pelas 11 da manhã de terça, na Capela de S. Brás, Quinta do Gato, Santa Joana, em Aveiro e a Universidade do Algarve disponibiliza transporte para lá.

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sexta-feira, agosto 31, 2007

O início depois do fim...

Arrumar o quarto não é para qualquer um. Ainda mais quando se arruma um quarto com quinze anos de história lá dentro. Aliás, com uma vida lá dentro. Arrumar e decidir o que fica e o que vai. O que continuará nos acompanhando ao longo da vida (até à próxima arrumação) e o que será (esperemos) reciclado (papéis que já de nada servem, plásticos inutilizáveis, etc., etc., etc.).

A vida humana se comparte entre a articulação do passado, onde temos as nossas memórias, o presente, aonde realmente vivemos, e o futuro, aquele local imaginário pelo qual lutamos. Não há como voltar atrás no tempo a não ser através das memórias e não há como avançar nele senão através dos atos.

Somos resultados de um crescimento exponencial das crianças que outrora fomos e dos jovens que decidimos ser. Encontrei cadernos e livros da secundária, fotocópias dos tempos da universidade, comentários dos tempos da primária até. Folhas soltas ao vento, a caminho de uma pasta ou de um saco de lixo.

E, enquanto encontrava cada pedaço do meu passado perdido, ouvia o CD que a minha mãe, tão carinhosamente, trouxera, para mim, do Brasil: Frejat (Sobre Nós 2 e o Resto do Mundo).

E cada vez que decidia deitar fora algo, um pedaço do meu passado remoto, lembrava daquele verso "Eu ja me cansei dessa história, não vou viver de memórias.. viver é bem mais". Viver é bem mais! Foi com esse pensamento que comecei a arrumação e lá vou terminando o árduo trabalho de ver o meu passado e pensar no meu futuro, arrumando o quarto, a mente e o coração, pensando no início, depois do fim.


Eu já fechei todas as portas, arquivos, gavetas
Eu já fechei todas as malas, as contas, os dias
Fechei os olhos, a boca
Fechei a cara, o corpo
Fechado no escuro do quarto
O início depois do fim
O que não cabe mais em mim
É bom você saber
Agora é pra valer
O início depois do fim
O início depois do fim

Estou fechado para reformas, obras, mudanças
O abraço eu tentei, o beijo eu nem sei
Os braços, as pernas, as mãos e o meu coração
Fechado no escuro do quarto
O início depois do fim


Letra e música de:
Frejat, Maurício Barros e Bruno Levinson
(se encontrarem a música, ouçam-na!).

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sexta-feira, agosto 03, 2007

Sofrendo e sorrindo

Estive há pouco em conversa com uma amiga, também psicóloga e admiradora de Frankl, e reli os textos que ela escreveu, há já algum tempo nalgum lugar, e lembrei-me que Frankl explica que existem três caminhos para conhecermos o sentido da vida, sendo...

A terceira via para encontrar sentido “aí, onde enfrentamos o destino que nos parece irrevocável”, aí onde parece que já não há saída consegue-se “realizar o mais humano dentro do homem”
(Frankl), transformando uma tragédia em triunfo e o sofrimento em progresso.

O ser humano é, assim, movido pelos valores de atitude, convertendo-se no homo patiens, que lhe permitem não só aceitar àquelas situações onde nada pode fazer, mas também agir dentro do marco dos condicionalismos impostos pela situação. Como diriam Campiche e colegas, o ser humano “talvez não tenha liberdade para estar doente ou são (…), ser burguês ou operário, mas tem liberdade para aceitar estados com resignação ou revoltar-se. O ser humano tem liberdade para reagir”.

Frankl reconhece o papel destes valores para o progresso humano ao afirmar que “Somente a atitude e a volição permitem-lhe dar testemunho de algo que só o homem é capaz: de transformar e remodelar o sofrimento a nível humano para convertê-lo em um serviço”. Mas atenção, o sofrimento não é a única via para o sentido: aquilo que seria a procura ou a vontade de sofrimento é mais um masoquismo despropositado: os valores de atitude não são nem sofrimento desnecessário nem mudança da situação limitante inalterável, são na realidade “experiências trágicas inerentes à vida humana” (Frankl) que permitem mudar a si mesmo, crescer, transcender.

É interessante a forma como 'Abdu'l-Bahá aborda este tema:

A mente e o espírito do homem avançam quando ele é provado pelo sofrimento. Quanto mais lavrado o solo, tanto melhor crescerá a semente, tanto melhor será a colheita. Assim como o arado sulca a terra profundamente, purificando-a dos cardos e das ervas daninhas, assim o sofrimento e a tribulação livram o homem dos frívolos assuntos desta vida terra, até atingir estado de completo desprendimento, quando sua atitude será de felicidade divina. O homem é, por assim dizer, verde; o calor do fogo do sofrimento amadurecê-lo-á. Olhai para os tempos passados e verificareis que os maiores homens sofreram o máximo.

Essas experiências trágicas podem ser três: sofrimento, culpa e transitoriedade. Não é pelo sofrimento (ou dor), pela culpa ou pela transitoriedade da vida (morte) que as pessoas desesperam, mas por não verem sentido nelas, por isso devemos tentar converter “o sofrimento em realização, a culpa em conversão e a morte em estímulo para a ação responsável” (Guberman e Soto), ultrapassando esta tríade trágica.

Sei que nenhuma palavra consola. Mas quem sabe, minha amiga, o sentido ajuda!

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segunda-feira, julho 30, 2007

Edgar Allan Pöe - Um Sonho

Em visões de noites de escuridão,
Sonhei com júbilo abandonado
Mas um despertante sonho de vida e iluminação,
Deixou-me de coração destroçado.

Ah! O que não é um sonho diário
Para aquele de olhar entibiado
Em coisas rodeantes num raio
Volvendo-se ao passado?

Aquele sonho sagrado -- sonho sagrado
Enquanto o mundo todo ia ralhando,
Me anima como um raio adorado
Que a um solitário vai guiando .

O quê, apesar daquela luz, que através de noite e tempestade,
Desde ao-longe tão estremecente --
O quê pode haver mais puramente luzente
Na estrela vespertina da Verdade?

Edgar Allan Poe (1809-1849).
Trad. de Sam do original inglês.

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terça-feira, julho 24, 2007

Transforme!

Vi há uns dias, pela segunda vez, os Transformers.

Para os mais cépticos, o filme tem enredo! Para os fãs de aventura e acção: o filme tem quinze cenas das melhores, dignas do director Michael Bay. Para os fãs de boa ficção-científica: o filme é incrível em efeitos especiais. Verdade seja dita, contabilizei seis erros no guião. Mas nada de fundamentalmente crucial no filme que tem sido um sucesso em todo o mundo.

Mas o que me leva a escrever sobre o filme não é o desejo de publicitá-lo. Apenas o regresso à nostalgia infantil de quem até se levantava cedo só para ver o Optimus lutar contra os Decepticons. Regressei àquela infância onde nunca entendi bem como é que os maus eram maiores, como é que os pérfidos possuíam mais armamento, e como é que os bons, pequenos e simples heróis, ganhavam sempre...

Creio que essa é um pouco a história da humanidade. Aqueles que são os bons são sempre vistos como pequeninos pelos olhos dos demais. O mal é sempre mais aliciante. Aliás, é sempre mais fácil escolher pela ausência do bem do que pelo bem.

Soube, por exemplo, que o Irão acabou de construir um jogo para computador onde os maus são os fortes estadunidenses. Os líderes mundiais, incapazes de se juntar pelo progresso humano, sob a camuflada demagogia de quem alega se preocupar com o seu país, pinta o outro como um decepticon dos mais feios e hediondos e se alega o bom da história, o pobrezinho que não deixará os princípios da honra e da liberdade ser destruída pelos "outros".

Pois bem. Senhor Putin lembre-se dos seus jornalistas e não se preocupe com a liberdade do Kosovo! Senhor Ahmadinejad, lembre-se dos bahá'ís que aí vivem, dos curdos e das mulheres, e deixe o EUA seguir o seu estilo de vida, na outra ponta do mundo. Senhor Chavez, deixe lá de ser populista e veja a miséria do seu povo. Senhores líderes: que sejam actos e não palavras! Não se limitem ao populismo de quem quer aparecer, mas marquem a história da humanidade, pela positiva e não pelo exibicionismo gigantesco de um Decepticon.

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quinta-feira, julho 12, 2007

A coragem visto nos olhos de uma criança

Meu Deus, teria sido melhor nascer sem um braço do que passar a vida sem ser corajoso.

Katherine Paterson (1977)
Trad. de Rita Simões (2007)
do original inglês.

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