Ansioso com o Congresso ao qual me dirigirei dentro de cinco dias, aproveito os últimos minutos do Dia Internacional da Saúde Mental deste ano para homenagear uma personagem cujo simples existência me impacta! Alguém cujo papel no desenvolvimento da saúde plena (mental, física, espiritual) é crucial!
Viktor Emil Frankl, fundador da Logoterapia, foi mais que um mero psiquiatra. Viveu duas guerras mundiais e parte importante da sua vida confinado a campos de concentração nazis. Como resultado dessa experiência única de vida, surgiu uma obra que o Congresso do Estados Unidos viria a considerar uma das mais importantes obras da Humanidade!
Em 1946 o livro O Homem em Busca de Sentido é publicado, inicialmente com o intuito de transmitir as ideias de um psiquiatra num campo de concentração. Mas, veio a assumir a obra, dizendo, há 25 anos (1983) que "havia querido simplesmente transmitir ao leitor, através de um exemplo concreto, que a vida tem um sentido potencial sob quaisquer circunstâncias, mesmo as mais miseráveis", ou seja, aquelas que viveu, na pele, como prisioneiro de campos de concentração.
E, mesmo no mais limitador dos espaços, como só um Campo de Concentração pode ser, Frankl foi capaz de notar que valia a pena Ser, Existir. Ensinou a seu companheiros que a existência implica viver para fora, para os outros, cumprindo um amor, uma missão de vida, ou mesmo ultrapassando um sofrimento.
Frankl ensina-nos, como pessoas e como psicólogos, que sendo aquilo que somos hoje e aquilo que fomos ontem, melhor poderemos ser amanhã, caminhando continuamente para uma plenitude humana dotada de sentido, tanto individual como coletivo.
Ser não é uma posição estagnada é, antes, uma condição de quem pode e deseja evoluir.
O caminhonão é para ser percorrido perseguindo a felicidade ou o sucesso. Eles virão naturalmente, basta deixá-los acontecer! Para isso, dizia Frankl, que deveremos escutar aquilo que a consciência diz que devemos fazer e colocá-lo em prática da melhor maneira possível. Assim, veremos que a longo prazo, nesse caminho, o sucesso e a felicidade nos irão perseguir, "precisamente porque esqueceram de pensar nele".
Por isso, o caminho do Ser não se percorre correndo sozinho ou obstinado com o destino. Percorre-se com amigos de jornada, caminhando com sentido, para poder encontrar, nalgum momento, esse mesmo sentido.
Mais informações sobre a Logoterapia (o que é, aonde existe, ...) ou sobre o Congresso poderão ser pedidos através dos comentários ou para phoenixadaeternum@gmail.com.
No dia que a NBC anuncia novos episódios onlines da série, escrevo um pouco sobre ela...
Heroes é daquelas séries que nos trazem pessoas iguais a todos nós, em desejos, sonhos e aspirações, mas que são dotadas de um talento especial. Heroes traz-nos questões como o medo de se tornar objeto público e rato de laboratório como no caso de Dark Angel, ou de se tornar vítima de perseguições sociais como X-Men. Heroes tem as típicas sociedades secretas de X-Files e Dark Skies controlando os destinos da humanidade.
É a ficção-científica no seu melhor, aonde a ciência é mesclada com a ficção de uma forma tão aprimorada que chega a ser estonteante. Aliás, raras vezes a ciência se tornou o mote principal de uma ficção, como neste caso. Segundo explica Dr. Suresh, de tempos em tempos, as espécies vão evoluindo e genes vão-se transformando. Neste caso, ao invés de termos uma genética que nos distingue na pigmentação da pele, do cabelo ou na cor do olho, a genética nos permite criarmos ilusões de ótica, voarmos, ultrapassarmos objetos físicos, não nos limitarmos às barreiras do espaço e do tempo, lermos a mente dos demais, levar à perda de determinadas memórias, regenerarmos de nossas doenças e feridas, curarmos os demais, tornarmo-nos invisíveis e, mesmo, prever o futuro.
Poucos reparam neste detalhe, mas o personagem principal não é Peter Petrelli, o enfermeiro que tem que salvar o mundo, através da sua ilimitada capacidade de absorção empática de poderes, nem Sylar o louco aí da foto que quer dominar o mundo, roubando (sabe-se lá como) os dons e talentos desta nova raça de homens.
Hiro Nakamura poderia ser uma boa aposta! Sim, quem conhece a série por vezes nem gosta dele, pois retira um certo grau de seriedade e nos faz rirmos da sua ingenuidade apesar de ser filho do magnata e descendente de um Japão iluminado e tecnocrata. Hiro, viajando do futuro ao presente, do presente ao futuro, e do presente ao passado é o primeiro que nos faz entender que o destino não está traçado, que não há tal coisa como futuro determinado e determinístico. Nenhum de nós é uma pintura de um quadro já pintado por alguma figura superior a nós.
O que a personagem de Isaac Mendez, para mim o principal de todos, nos traz (na primeira temporada) é a reflexão verdadeira sobre o sentido e propósito de nossas vidas, tantas vezes mencionado ao longo da série. Trata-se de um pintor que consegue, como um oráculo, prever o futuro. E, nunca falhou! O interessante é que o que ele prevê acontece sempre, mas, muitas vezes, com ligeira variação. Ele prevê o que irá acontecer antes de alguém voltar atrás e alterar a história e chega mesmo a prever a nova versão da história; mas, mais interessante ainda é que ele prevê uma imagem fixa: não prevê o que acontece antes ou depois daquela imagem. E é isso que nos faz sermos humanos, termos o nosso livre arbítrio, a liberdade de, como diria Frankl, decidirmos o que ser e o que fazer no momento seguinte!A responsabilidade, aquele apêndice esquecido da liberdade!
Se não fosse Mendez não surgiria o debate entre profecia, destino e liberdade. Graças a este simples personagem, jovens admiradores da série, por todo o mundo, podem pensar: será que eu sou fruto de algum destino pré-estabelecido ou sou eu que tomo as minhas decisões?Vezes e vezes sem conta, os vários personagens da série viram-se confrontados com o destino voraz que lhes estava previsto, mas, por decisão pessoal, mostraram-se capazes de contornar o destino da mesma forma que um navio impelido pela força do vento é capaz de se dirigir para onde quiser, ainda que o vento o impila noutra direção.
Este foi um dos meus maiores prazeres ao ver Heroes: pensar no papel do destino na minha Vida e refletir no papel que a minha vida representa no Destino!
Autoreconhecimento na infância: trinta anos atrás e hoje
Li uma análise interessante de um estudo publicado em 1972 (no Developmental Psychobiology) por Beulah Amsterdam de nome Mirror image reactions before age two (em português, Reações a imagem em espelho antes dos dois anos). Neste estudo testaram-se 88 crianças que eram colocadas em frente a um espelho, com o objetivo de verificar se elas entendiam quem seria aquela do reflexo. Da conclusão da análise que só foi lograda em 16 das crianças (repare-se o número nada significativo!), concluíram-se três possibilidades:
As crianças comportaram-se como se a pessoa no espelho fosse outra criança: sorriem-lhe e tentam falar-lhe, como que tentando com ela interagir;
Escape: olham um pouco ou sorriem ocasionalmente – basicamente não se entende porque elas assim reagiam, sem demonstrar interesse como no caso anterior (reconhecem-se e não querem se ver no espelho? acham outras coisas mais interessantes do que ficar a olhar para outra criança?);
Auto-reconhecimento: acontecendo somente aos dois anos de idade, a criança reconhece-se, brinca consigo mesma, leva a mão ao nariz e se ri, olha para o adulto e aponta para si mesma e aponta para ele, entre outros sinais.
Bem, já pararam para pensar que as crianças de hoje, mais de trinta anos depois, nascem já com os pais filmando, ou mesmo as ecografias mensais (que exagero!!!) a ser gravada em DVDs, estas crianças já não têm que esperar 2 anos, mas apenas meros 6 meses para se reconhecerem no espelho? Alguém já notou como elas agora reagem a todos os estímulos como nenhuma criança de geração anterior? As nossas crianças nascem e agem de formas que nós, quando crianças, demorávamos muito mais. E depois, quando adolescentes, será que aprenderão mais rapidamente que nossos pais? Bem, se nós pensamos em nossos doutorados como quem pensava, há um par de décadas, em se graduar, e qualquer ponto do planeta se faz nosso potencial lar, definitivamente não poderemos pensar que a vida se mantém a mesma.
Viktor Frankl afirmava que “cada época tem sua neurose”, Ludewig que “cada época necessita uns modelos de cura que respondam a seu auto-conceito histórico” e Bahá’u’lláh que “cada época tem seu próprio problema, e cada alma sua aspiração especial”.
Então, talvez devêssemos ocupar-nos com os requisitos desta época e deixar de nos basearmos em estudos de décadas atrás.Assim, não será oportuno refazer a investigação em condições mais adequadas? Ou melhor, não será mais adequado repensar a nossa visão de vida e de desenvolvimento humano?
Tendo estado, há algum tempo atrás, no Brasil, não poderia ter deixado de notar o leque amplo de religiosidade entre o seu povo. Mas é interessante notar como a religião e o dogma e as tradições se confundem no país da mescla. Porque somos cristãos, judeus, muçulmanos ou bahá'ís? Por tradição familiar ou por decisão pessoal? Pessoalmente, acredito que a livre e independente busca da verdade (ou Verdade?) deveria ser o motor da decisão religiosa (ou arreligiosa até!). Longe daquele clero e dos pastores que acham que são detentores de um conhecimento mais acurado dos textos sagrados que exigem que eu pense como eles, prefiro ser eu a pesquisar e entender a religiosidade e, depois decidir, se concordo com este ou aquele movimento.
Frankl, se estivesse vivendo no Brasil, voltaria a escrever o seu A Presença Ignorada de Deus e, quiçá, faria sequelas da obra. Ele afirma:
De facto, a evidência clínica sugere que a atrofia do sentido religioso na pessoa humana resulta numa distorção de seus conceitos religiosos. Ou, falando em termos menos clínicos: uma vez reprimido o anjo dentro de nós, ele vira um demónio. Existe um paralelo inclusive em nível sociocultural, pois repetidas vezes observamos e somos testemunhas de como a religião reprimida acaba degenerando em superstição.
Ora, mesmo os alegados milagres têm muito que se digam, mas não entrarei por aí. O fenómeno psíquico que funciona, o fenómeno de marketing que engana, as informações erradas que se podem passar, nada disso, me interessa aqui. O que me interessa é pensar no seguinte:
Será que Deus precisa de nós e por isso utiliza milagres para nos chamar a atenção? Ou, ao contrário, nós é que precisamos dEle?
Será que temos o direito de Lhe exigir milagres, sendo uma obrigação Sua provar-Se perante Suas criaturas, e não estas a Deus?
Será a Causa de Deus uma exibição teatral, apresentada de hora em hora, da qual se possa esperar todos os dias algo novo? É que, penso, se assim fosse, tornar-se-ia mero brinquedo de crianças...
Além do mais, se os milagres se fazem prova de Deus, o que diferencia o religioso milagreiro e milagroso de um mágico ou mago?
Não ouso responder a nenhuma dessas questões!
Atenção. de forma alguma falo da impossibilidade dos milagres, apenas menciono a sua i-necessidade.
Novos congressos, novas formas de ver a psicologia
Quando começamos os estudos e vamos a um Congresso a nossa capacidade de percepção e entendimento é uma. Fascinamo-nos com tudo o que ouvimos e vemos, queremos aprender mais e mais. Achamos que algum dia poderemos ser como aqueles professores, doutores, mestres, profissionais que estavam ante nós, falando dos mais diversos e variados temas.
Quando acabamos os estudos, acreditamos que ainda não somos capazes de ser um daqueles que vimos. Continuámos indo a um e outro congresso, apenas ouvindo o que nos dizem. Até que alguém nos chama a atenção para começarmos a ter coragem de ser livre das amarras e avançarmos com força com as nossas capacidades.
Há algumas horas acabou o Congresso da Federação Internacional de Terapia Familiar e, sem sombra para dúvidas, sinto-me feliz por poder ter sido o primeiro a falar de Logoterapia em seu seio. Mas, para além de ter sido capaz de apresentar as minhas ideias, articulando autores como Maturana, Heidegger, Sartre, Frankl e Ludewig, senti que de facto, cada momento de nossas vidas, sentimos e somos de uma forma distinta dos nossos momentos anteriores: não somos mais quem eramos anteriormente, as nossas necessidades e as nossas capacidades vão-se articulando e alterando, adaptando-se às nossas vidas e às suas novas circunstâncias. Se ontem me sentia incapaz de compreender os ponentes e maravihava-me com suas capacidades oratórias, hoje sinto-me em júbilo por ter sido capaz de fazer uma leitura das ótimas prestações dos oradores, sendo capaz de utilizá-las na minha própria prática profissional.
Há meia dúzia de anos, não entendia e gostava. Hoje entendo, exponho e adoro! Nada como ir a um bom congresso de Psicologia, quando somos apaixonados por ela...
Encontrei no site espanhol Psiquiatria, uma lista dos mais ilustres do mundo das Psi-ciências, cujo nome começa com F. Assinalados estão os que eu conheço e, ao que parece, ainda há muito a estudar... Confira a lista:
Fahr Theodor (1877-1945) Fairbairn W Ronald (1889-1964) Falret Jean Pierre (1794-1870) Falret, Jules Philippe Joseph (1824-1902) Faría, Jose Custodio de, Abate Faría (1756-1819) Fechner Gustav Theodor (1801-1887) Federn ,Paul (1871-1950) Feigl Herbert (1902-1988) Feijoo Fray Benito Jerónimo (1676-1764) Fenichel Otto (1897-1946) Ferenczi Sandor (1873-1933) Fernández Sanz Enrique (1872-1959) Fernández-Vitorio y Cociña, Antonio (1855-1920) Ferri Enrico (1856-1929) Ferrier , James Frederick (1808-1864) Feuchtersleben Ernst F von, Barón (1806-1949) Fichte Hans Gottlieb (1762-1814) Ficino Marsilio (1433-1499) Filodemo de Gadara (c.110–c.40-35 AdC) Filón de Alejandría (c.20 AdC) Fischer Edmudo (1904-1975) Flechsig, Paul Emil (1847-1929) Flourens, Pierre Charles -Jean (1794-1867) Flournoy Theodore (1854-1920) Flugel, John Carl (1884-1955) Foerster Otfried (1873-1941) Forel Auguste Henri (1848-1931) Forge Luis de la (fl. 1666) Foucault Michel (1926-1984) Fouillée , Alfred (1838-1912) Frank Erich (1883-1949) Frankl Victor (1905-1997) Franz, Shepherd Ivery (1874-1933) Fregoli Leopoldo (1867-1036) Freud, Anna (1895-1982) Freud, Sigmund (1856-1939) Frey Max Von, (1852-1932) From Erich (1900-1980) From-Reichman Frida (1889-1957)
Viktor Frankl é o fundador da Logoterapia e, o vídeo que se segue, é um de meus favoritos.
A tradução completa, por mim, a partir do original inglês:
Querem fazer muito dinheiro. Na Europa, todo estudante americano e todo adulto americano é tido como alguém que está aí para fazer muito dinheiro. Realmente, 16%, 16% desses estudantes mencionam que o seu principal objectivo e preocupação de vida é fazer muito dinheiro – e cito-o literalmente: fazer muito dinheiro. E sabem a classe de topo, a categoria de topo – categoria, categória, como é que dizem? – categoria era... – desculpem-me, sei que falo com um maravilhoso sotaque sem o mínimo inglês. Sabem qual foi a categoria de topo? 78% destes jovens americanos estavam preocupados, como se expressaram, com encontrar um sentido e um propósito para as suas vidas. Então, é uma visão realista do homem.
E sabem? Não vão acreditar. Cabelo grisalho... A minha idade... Comecei a ter aulas de aviação. E sabem o que o meu instrutor de voo me disse? «Se começarmos aqui e quisermos chegar aqui, digamos Este, dirigidos para isso e tivermos um vento contrário, seremos levados, e aterraremos aqui e teremos fazer aquilo que nós pilotos chamamos crabing (C-R-A-B). Temos que dirigir-nos a Norte desta base aérea e teremos que voar naquele sentido, como se nos dirigíssemos àquela direção. Se nos dirigíssemos para aqui, por cima desta base aérea então, realmente, aterraríamos aqui. Mas se formos para aqui, aterraremos aqui.» Isto também se aplica ao homem, eu diria. Se tomarmos o homem como ele realmente é, fá-lo-emos pior. Mas se o sobrestimarmos... É prematuro, o vosso aplauso, e em breve saberão porquê... se parecermos idealistas e sobrestimarmos, sobrevalorizarmos o homem e olharmos para ele daqui de cima, sabem o que acontece? Promoveremos nele aquilo que ele pode realmente ser, portanto temos que ser idealistas de certa forma. Então encontraremos a verdade do real realista. E sabem quem disse isso? «Se tomarmos o homem como é, fá-lo-emos pior, mas se tomarmos o homem como ele deveria ser, fá-lo-emos capaz de tornar-se o que ele pode ser...» Isso não foi o meu instrutor de voo, não fui eu, foi Goethe: ele disse isso verbalmente. E agora irão entender porque num dos meus escritos disse, certa vez, que esta é uma das maiores máximas e motes de qualquer actividade psicoterapêutica. Então, se não reconhecermos a vontade de sentido de um jovem, a busca de sentido do homem, fá-lo-emos pior, torna-lo-emos aborrecido, frustramo-lo e ainda contribuímos continuamente para a sua frustração. Enquanto que se pressupormos que este homem, este alegado criminoso ou delinquente juvenil ou toxicodependente, e por aí em diante, deve ter uma... como se diz... faísca, sim, faísca de busca de sentido: vamos reconhecê-lo, vamos pressupô-lo e, então, iremos extraí-lo dele e fá-lo-emos transformar naquilo que ele, em princípio, é capaz de se transformar.
Quando há exatamente quatro anos acabei a minha licenciatura em psicologia, a sensação era estranha: a responsabilidade estava perante mim; a responsabilidade, o outro lado da moeda da liberdade. Quando há uns meses, duas supostas amigas minhas viram-me a falar com um sem-abrigo e gozaram comigo, foi esse sentimento que me regressou à mente: a responsabilidade. Claro que não me sinto responsável sobre o destino das outras pessoas, mas tenho a responsabilidade sobre o meu próprio destino e a forma como decido interagir com o destino dos demais. Eu decido o que sou, decidi quem fui, e decidirei o que fazer no momento seguinte: mais ninguém tem esse poder!
As circunstâncias e condicionantes da vida lá estão, circunstanciando e condicionando-me. A saúde, a sociedade, a matriz cultural: estão todas lá, e com elas eu faço o que quiser.
Noutro post, há já uns meses, citei Frankl que dizia que “Somente a atitude e a volição permitem-lhe dar testemunho de algo que só o homem é capaz: de transformar e remodelar o sofrimento a nível humano para convertê-lo em um serviço”.
E vejo que o sofrimento é um exemplo através do qual podemos crescer. Diz Frankl que há três vias para encontrarmos sentido em nossas vidas. A primeira através da obra criada, a segunda através do amor experenciado e a terceira aí onde o sofrimento se converte em oportunidade, na oportunidade de servir de mudança da lei, de servir de fiscalização do sistema, de consciência pública, de exemplo para outras pessoas.
O que se pretende fazer é aquilo que Frankl dizia: encontrar o sentido, onde ele parece não querer ser encontrado, encontrar o sentido na prevenção de novas tragédias e no despertar da Justiça.
E me pergunto: se eu, psicólogo faz hoje quatro anos, não me preocupar com a dor de uma mãe cuja filha mais nova está em coma há cerca de uma década, com quem me preocuparia?
Psicólogos de várias associações estadunidenses e mundiais reuniram-se, anteontem e ontem, na Sede das Nações Unidas para celebrar o I Dia da Psicologia.
“Paz e Conflitos Armados”, “Direitos Humanos e o Mundo Laboral”, “Respostas Psicológicas a Desastres” foram alguns dos temas debatidos e apresentados neste encontro, cujo principal objectivo era o de providenciar uma oportunidade para Embaixadores, pessoal e representantes de ONGs a ganharem consciência do papel da Psicologia nas Nações Unidas.
A Psicologia é uma ciência ao alcance de todos e, como diria Frankl, omnipresente: ela está em todo o lado, desde as relações intrapsíquicas aos conflitos internacionais.
Por isso, sinto a necessidade de publicitar alguns blogs que compreendem a sua importância, tentando torná-la mais próxima de todos. Assim, os psicoblogs mais psicos são: em espanhol o blog de Susana Frisancho, em inglês o Psyblog, em italiano o blog Psicocafé e, em português, louvo o trabalho desenvolvido pelo raro blog PsiSalpicos.
Por fim, quero também elogiar outra iniciativa que pode ser utilizada para um maior prestígio desta ciência nobre que é a Psicologia: Wiki de Psicología (em pespanhol).
Tendo em conta o pressuposto de que cada época possui os seus problemas específicos e que é função do terapeuta servir de co-facilitador do processo de melhoria, a Associação Espanhola de Logoterapia, em parceria com a Fundación Argentina de Logoterapia, está a promover o curso de Formação Sistemática em Logoterapia, a iniciar em Novembro próximo.
O curso de três anos será constituído por módulos de história, antecedentes e fundamentos filosóficos da logoterapia, a visão antropológica e a ontologia dimensional humana, a abordagem existencial da problemática humana, a teoria dos valores, a teoria e terapia da neurose, a logoterapia aplicada (à família e à educação), a resiliência, a terapia de situações limites e a velhice plena de sentido. As aulas presenciais são em fins-de-semana intensivos e a avaliação será feita, anualmente, através de trabalho.
Candidaturas
Pré-inscrição: 30€.
Propinas anuais: 600€.
Processo de candidatura: licenciatura e avaliação curricular.
Estive há pouco em conversa com uma amiga, também psicóloga e admiradora de Frankl, e reli os textos que ela escreveu, há já algum tempo nalgum lugar, e lembrei-me que Frankl explica que existem três caminhos para conhecermos o sentido da vida, sendo... A terceira via para encontrar sentido “aí, onde enfrentamos o destino que nos parece irrevocável”, aí onde parece que já não há saída consegue-se “realizar o mais humano dentro do homem” (Frankl), transformando uma tragédia em triunfo e o sofrimento em progresso.
O ser humano é, assim, movido pelos valores de atitude, convertendo-se no homo patiens, que lhe permitem não só aceitar àquelas situações onde nada pode fazer, mas também agir dentro do marco dos condicionalismos impostos pela situação. Como diriam Campiche e colegas, o ser humano “talvez não tenha liberdade para estar doente ou são (…), ser burguês ou operário, mas tem liberdade para aceitar estados com resignação ou revoltar-se. O ser humano tem liberdade para reagir”.
Frankl reconhece o papel destes valores para o progresso humano ao afirmar que “Somente a atitude e a volição permitem-lhe dar testemunho de algo que só o homem é capaz: de transformar e remodelar o sofrimento a nível humano para convertê-lo em um serviço”. Mas atenção, o sofrimento não é a única via para o sentido: aquilo que seria a procura ou a vontade de sofrimento é mais um masoquismo despropositado: os valores de atitude não são nem sofrimento desnecessário nem mudança da situação limitante inalterável, são na realidade “experiências trágicas inerentes à vida humana” (Frankl) que permitem mudar a si mesmo, crescer, transcender.
É interessante a forma como 'Abdu'l-Bahá aborda este tema:
A mente e o espírito do homem avançam quando ele é provado pelo sofrimento. Quanto mais lavrado o solo, tanto melhor crescerá a semente, tanto melhor será a colheita. Assim como o arado sulca a terra profundamente, purificando-a dos cardos e das ervas daninhas, assim o sofrimento e a tribulação livram o homem dos frívolos assuntos desta vida terra, até atingir estado de completo desprendimento, quando sua atitude será de felicidade divina. O homem é, por assim dizer, verde; o calor do fogo do sofrimento amadurecê-lo-á. Olhai para os tempos passados e verificareis que os maiores homens sofreram o máximo.
Essas experiências trágicas podem ser três: sofrimento, culpa e transitoriedade. Não é pelo sofrimento (ou dor), pela culpa ou pela transitoriedade da vida (morte) que as pessoas desesperam, mas por não verem sentido nelas, por isso devemos tentar converter “o sofrimento em realização, a culpa em conversão e a morte em estímulo para a ação responsável” (Guberman e Soto), ultrapassando esta tríade trágica.
Sei que nenhuma palavra consola. Mas quem sabe, minha amiga, o sentido ajuda!
Se não temos os nossos sonhos, Não temos nada. Charles Farmer
Filme de 2006 estreado recentemente nas salas portuguesas, The Astronaut Farmer é a história do engenheiro que, não podendo completar a sua formação na NASA, continua a lutar pelo seu sonho: criar um foguete e lançá-lo ao espaço.
A NASA, o Exército, o Congresso, a FAA, com o apoio do FBI, erguem-se contra o seu sonho, o banco o ameaça de bancarrota e o legado do seu pai continua a pairar sobre ele como uma sombra.
Mais do que um filme, é uma trama sobre o sonho, trata-se de uma família humanas que, a cada cena, tenta responder, em unidade, à grande pergunta: Como é que uma família funciona? Os jogos familiares ao jantar, o legado que se transmite de pai para filho (de desistir ou de persistir ante as dificuldades), o sorriso ternurento de crianças (que fantasiam com o pai) e o filho que ajuda (numa fé quase cega e claramente idólatra).
É a história de uma família, entre tantas outras; é a história de uma esposa que entende que a família deve encontrar sentido numa actividade conjunta, numa obra criada por todos. É a história do filho que não pode ser como o avô, porque o pai recusa em ser como o seu predecessor. É a história do marido que não sabe a quem ama mais: o seu sonho ou a sua família (apesar de saber responder a essa pergunta).
Mais do que o elenco – na medida em que o filme não depende das actuações de Billy Bob Thorton e de Virginia Madsen nem da presença discreta de J. K. Simmons ou de Bruce Willis (tão discreta que nem vi o seu nome no genérico!!!) – que não nos faz chorar, nem apela ao mais humano em cada um de nós, nem tampouco nos dá uma história convincente – afinal de contas, quem consegue sozinho (ou com a ajuda de três crianças) montar um foguete espacial em nada menos que um mês de Maio? – temos os gémeos Polish com um enredo profundo. Michael Polish, em particular, está de parabéns pela realização aguçada.
Farmer vivia numa cidade de nome Story e a estória da sua vida era a de um homem que, como tantos outros, delineava a ténue barreira entre o sonho e a insanidade, entre a genialidade e a estupidez humana. O que o filme demonstra é que é o guião que comanda o filme e é o sonho que comanda a vida.
Resta saber: Será que ele alcança o sonho da sua vida? Será que ele desiste? Será que ele toma a decisão certa? Será que a sua família lhe apoia? Será que ele apoia a sua família? Será que ele sobrevive às suas escolhas? Ou as escolhas sobreviverão a ele?
De um enredo excepcional, o Astronauta não é um mero camponês (farmer): o astronauta é do campo (farm), mas o seu limite é aquele que ele, enquanto ser humano decide. O sentido não está na morte (como diria Freud), mas na obra criada, no amor recebido e no sofrimento. O sentido da vida está naquilo que a família, em conjunto, decide para todos: é o filme que relata uma família em busca de sentido.
E assim termina 2006, o ano que trouxe consigo grandes desafios e apazigou grandes tormentas. Foi um ano repleto do melhor e do pior da espécie humana, nas artes, na política, no humanismo. Foi o ano que nos fez sermos anjos entre demónios e diabos entre santos.
2006 foi o ano que me apresentou aos grandes criadores do cinema como Oliver Sacks e George Romero e, e fez-me encontrar esperança nas piores das circunstâncias em Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel, de Fernando Meirelles, que nos permitem encontrar a beleza e a serenidade na corrupção e a paz na mesquinhez humana, sendo sereno sem ser monótono, triste sem ser piegas e realista sem tirar-nos a esperança!
Na televisão destaco Jack & Bobby, a história de como as decisões face os contra-tempos da vida nos podem permitir atingir o mais alto céu - transmitido pela RTP que teve corte de emissão num dos mais importantes episódios, sem retransmiti-lo a despeito de pedidos (alguém sabe como o Bobby morreu?, porque os meus impostos não me servem para demandar um bom serviço televisivo). A SIC e a Globo emitiram duas rainhas de audiências Alma Gémea - a luta infindável pelo amor eterno - e Sinhá Moça - a luta infindável pela igualdade entre os seres humanos.
Foi o ano que me permitiu ver a elevação dum sonho de antanho que era a Psicologia Actual - a primeira revista divulgativa de Psicologia em Portugal - e da minha Investigação final de Mestrado (com mudança de tema e dois meses para trabalhar o novo tema...). Três casais amigos se elevaram ao encontro derradeiro da entrega matrimonial e eu, agora, acrescento à minha lista de locais visitados o País Basco (Espanha/França) e Málaga (Espanha), tendo encontrado a Psicoterapia Positiva em Wiesbaden (Alemanha).
Mas o ano que está a despertar será um ano mais pleno, pois o somatório de seus numerais (2007) perfaz 9, o número completo e perfeito que abrange todos os números inferiores. Será em 2007 que reencontraremos o Sudão e o Chad e a Somália e a Etiópia nos cabeçalhos do mundo; veremos as constituições brasileira e venezuelana a caminho de alteração e a constituição europeia nalgum caminho; veremos se Yazdí continua com a sede de eliminar todo pós-islamismo; e se os ocidentais de segunda geração compreenderão que são resultado de uma belíssima transculturalidade... e se os nativos abrem os braços para o embelezamento de seus jardins monoculturais!
Verei um e cada filme que me transmita pessoas entre dois mundos: o mundo que sempre consideraram real, correcto e justo e o mundo que é de facto o real, incorrecto, injusto e hipócrita - e as decisões que terão que tomar entre uma e outra realidade... Verei nos telejornais a que custo se salvarão vidas na Europa e na América... Se será ao custo da brisa de jardineiros de vidas que não sabem a quem ser fiéis? A que custo se termina uma guerra na África ou na Ásia, ou que se perde nelas uma vida ou se renasce na própria vida? Estas são as perguntas que quero ver respondidas em 2007.
Este será o ano que me deixarei levar pela vida, em todas as suas dimensões e valências. 2007 será o ano que lerei ainda mais e escreverei ainda mais.
Miguel Garrido, director do meu mestrado, costumava dizer, em aula, que de nada serviam os cursos universitários e os títulos académicos se não lessemos 10 livros por ano. Eu fui para além disso: em 2006 terminei a leitura de vinte livros (outros tantos acompanhar-me-ão para terminarem em 2007). Foram três os géneros e três os autores que me maracaram este ano e que, mui provavelmente, marcar-me-ão em 2007: a mística pragmática de 'Abdu'l-Bahá em Palestras em Londres, o humanismo psicológico de Viktor Frankl em Voluntad de Sentido e o humanismo pragmático de Orhan Pamuk na sua Cidadela Branca. Do prémio Nobel Pamuk destaco a seguinte passagem, com a qual quero desejar um 2007 pleno de sentido a todos vocês:
O homem deve gostar da vida que escolheu ao ponto de acabar por assumi-la.
E vocês: quais foram as escolhas que fizeram em 2006, e como querem assumi-las em 2007?
Melhor mil vidas morrer Que viver assim atormentado Querida, lembra-te que o meu ser Por tua causa morreu rejubilado.
John Dowland (1563-1626) in "The Earl of Essex Galliard" - First Booke of Songes (1597) Trad. por Sam.
Cantado por Sting in Songs from the Labyrinth, a música de Dowland é dissonantes mas também envolvente. As dez canções presentes nesta recompilação provam-nos que o compositor era detentor duma personalidade singular que questionava, à boa maneira do seu tempo, a vida e a morte. Numa das canções -- Wilt thou unkind thus reave me -- demonstra a jubilosa melancolia de quem é capaz de ver para além do sofrimento dum amor não correspondido; pois amor tão intenso é aquele que permite maior facilidade em se afastar para, como Majnún ou Romeu, buscar a sua Laylí ou Julieta na morte: "a vida irá morrer, a morte manter-se-á viva para te amar", afirma o poeta-cantor.
Nesta condição de lutador, vivo pela morte, Dowland recebeu o título de Orfeu inglês, o personagem mitológico que regressa do mundo dos mortos. É ele o homem que, não merecendo (talvez como ninguém o mereça) o título de maníaco-depressivo, soube ver alegria e tristezas na vida, aprendendo a dar ao mundo e a receber do mundo, para depois poder transformar o sofrimento nalguma realidade com sentido (parafraseando o psiquiatra austríaco Frankl).
Numa das minhas músicas favoritas do álbum Come again, as aliterações e as redundâncias fazem da lírica e da música a mais jubilosa de todas, permitindo ao ouvinte (sabendo ou não inglês) sorrir mediante a descrição da dor, pois o autor sabe que enquanto sofre está perante a amada, a maior fonte de prazer ao seu coração, a bela jóia da sua existência.
Conforme explicou Frankl (1977), esta é a característica dos que reconheceram o seu papel no progresso humano, ao afirmar que "somente a atitude e a volição permitem-lhe dar testemunho de algo do qual só o homem é capaz: de transformar e remodelar o sofrimento a nível humano para converte-lo num serviço". É o que o próprio Sting diz: a música de Dowland vai "nos lembrando que apesar de poder haver tragédia na vida, a vida em si não é trágica".
A pedido de vários visitantes deste blog, escrevo algumas linhas pessoais sobre o que se pode entender do poema anterior de Saná'í, citado por Bahá’u’lláh em Seu místico Os Quatro Vales.
A citação mencionada no post anterior é extraído do Quarto Vale, onde os ‘Arifán (os dotados de conhecimento místico) pretendem alcançar a união com a Divindade, a fonte absoluta do Amor Absoluto.
Desta forma, a aproximação à fonte de amor torna-se no sentido da vida do buscador, do viajante pelos vales. Vamos de encontro ao comentário de Catarina Gomes (a 15 de Julho) que afirma “Ao não recusarmos a cobiça e ao deixarmo-nos levar por sentimentos negativos estaremos como que perdidos e sem rumo”, e viveremos, conforme comentado por Patrícia M. (a 12 de Julho) “numa perspectiva de eterna insatisfação”.
Frankl explica que ao irmos à procura do prazer por ele mesmo acabamos por frustrar tanto a vontade de prazer como a vontade de sentido. Ainda, diz que o prazer deveria ser o efeito secundário das nossas acções com sentido. Desta forma, o coração dominado pela cobiça, ambição, ganância e desejo contínuo e persistente não nos permitirá encontrar o nosso objecto de amor.
Um homem ao qual uma mulher acaba de dizer que o ama, pode começar a dançar e cantar. E fazendo-o ele afasta a sua mente do prudente e difícil comportamento que terá que manter se quiser merecer este amor e aumentá-lo, para possui-lo através de incontáveis detalhes (sorrisos, pequenas atenções, etc.). Ele afasta-se até da própria mulher.
Tanto ele a queria (“coração cobiçoso”) que ao ter atingido a sua meta, perde-o pela sua própria conduta!
Elaheh (a 16 de Julho) menciona a possibilidade de que na segunda parte do poema a tradução possa diferir do original. Ao que parece o original menciona um traje que protege à alma (mais que uma mortalha). O nosso erro torna-se assim em confundir “coração amortalhado” com coração em dor e sofrimento. Se assim fosse, concordar com o poema impedir-nos-ia de concordar com os valores de atitude de Frankl, na medida em que para ele o sofrimento e a dor são uma via para crescimento e o progresso, pois “o homem enfermo, o homem que sabe como sofrer, como plasmar os seus sofrimentos em logros pessoais” (1982) saberia “Reunir-se com a rosa da beleza”.
Eliminada esta hipótese só nos resta concordar com Savi (obra por publicar) que afirma “O dístico de Saná’í citado por Bahá’u’lláh parece sugerir que nada, nem a fina roupa, deveria intervir entre o homem e Deus”, da mesma forma que a mariposa que sabia e entendia a realidade da chama foi a que se fundiu com a chama.
Tratando-se dum poema cujo “estilo de verso [é] comummente chamado poesia erótico-mística" (Bausani, Religion in Iran) poderíamos aplicar isso à vida de casal. Numa epístola, 'Abdu'l-Bahá admoesta a um casal que “Juntos fazei menção de nobres aspirações e conceitos celestiais. Que não haja segredos entre vós” e numa celebração pública de casamento profere “Agora vós dois não sois mais dois, mas um. O desejo de Bahá’u’lláh é que todos os seres humanos tenham o mesmo propósito e se considerem partes de uma grande família”.
O amante deveria assim, desprendido de cobiça e em humildade, aproximar-se tanto do Bem-Amado, de forma a que nenhum véu ("mortalha" em português ou "vestimenta" em persa) possa remanescer entre eles.