segunda-feira, junho 09, 2008

A esperança vem de onde menos se poderia esperar...

Hoje, o Centro Mundial Bahá'í enviou uma carta aos bahá'ís do Irã, mencionando as prisões em Março da liderança bahá'í iraniana. Outras membros daquela Comunidade Bahá'í também foram presos: a 19 de Maio Cheraghali Ahmadi, Changiz Derakhshanian e Simin Gorji em Mazandarán e, a 24 de Maio, na cidade de Isfahán, Hushmand Talebi e Mehran Ziny acusados de enterrarem, nos últimos 15 anos, em cemitério bahá’í, seus familiares falecidos. Segundo Ali-Reza Jamshidi, Porta Voz do Judiciário, os bahá’ís têm sido presos por participarem de “reuniões ilegais”.

Mas a verdade é que lhe são atribuídas acusações sem base, resultantes de uma perseguição por suas crenças e práticas religiosas. E, numa tentativa de explicar o inexplicável, um dos “pais” da Revolução Islâmica Iraniana, o Sr. Montazeri, diz “porque os Baha’is não têm um Livro divino, sua fé não foi reconhecida como oficial pela Constituição”. O jornal do estado, o Keyhan, insiste em chamar-nos “seita bahá’í fabricada de ímpios, pervertidos”, e o semi-estatal Fars cita um doutor Rasoul Pour-Ahmad que adverte “se mantém-se silêncio sobre a ilegais, nefasta seita Baha’i, nossas mulheres e nação seriam rapidamente colocados sob as botas de Israel, graças aos Baha’is”, uma vez que, continua ele, os bahá’ís estariam a serviço de espionagem sionista.

As duas falhas dessa última asserção são que:

(1) Fundamenta-se no facto de o Centro Mundial Bahá’í estar na cidade de Haifa (Israel), mas esquecem os seus apologistas que Bahá’u’lláh foi exilado àquela região de Israel pelas monarquias persa e otomana cerca de um século antes de Israel sequer vir a existir, falecendo em 1892 (Israel esteve a comemorar o seu 40º aniversário há alguns dias!).

(2) Se os bahá’ís iranianos não podem aceder ao exército, trabalhar para o estado, ou sequer aceder ao ensino universitário devido às constantes legislações iranianas, de que tipo de espionagem poderiam sequer ser acusados?

Eu proponha outra alternativa ao crime de ser bahá’í.

Na década de 1950, Sheikh Mahmoud Halabi (próximo a Khomeini) fundou, com comerciantes de bazar e alguns clérigos, a Caridosa Sociedade do Mihdí (Anjoman-e Khayryyehye Hujjatiyyah-ye Mahdaviat). Eles eram contra os comunistas e ateus e a sua missão seria a preparação para a vinda do Prometido "Imám Oculto" do Islã, o Mihdí.

Naturalmente que sustendo-se na ideia de que uma de suas figuras centrais, o Báb, seria o já regressado Mihdí, a Fé Bahá’í foi imediatamente vista como prejudicial à agenda desse movimento. Por isso mesmo, o nome alternativa do movimento dos Hujjatiyyah tornou-se “Sociedade Anti-Bahá'í” (Anjuman-e Zidd-e Baha'iyat). O seu propósito tornou-se um só: erradicação dos bahá’ís.

Aqui vai um excerto de um texto publicado no American Thinker pelo americano-iraniano Amil Imani:

(…) Ahmadinejad é um membro dos Hujjatiyyah. Vê-se como o vassalo pessoal do Mahdi-Messias ou Imám Oculto, com quem fantasia tête-à-têtes frequentemente.

Ahmadinejad, um homem movido pela sua religião, tem seu conselheiro espiritual em Ayatollah Mohammad Taghi Mesbah-Yazdi (o defacto líder dos Hojatieh). O conselheiro do Presidente é conhecido por suas visões extremistas sobre o Islã e promove bombismo suicida e ataques a civis no Ocidente. Há só uma visão do Islão para ele. Certa vez disse “… se alguém lhe disser a sua interpretação do Islão, esmurre-lhe a boca”.

Ahmadinejad emerge como completamente são. É completamente previsível, consistente e não mostra nenhuma auto-contradição. Nem sequer pretende que teve um lapso na fala ou desculpa-se por suas declarações ultrajantes. Não é um típico político que pratique a desviante arte de duplo-falar, engano e mudança e posição para adequar sua conveniência imediata.

A Humanidade deve aprender que ignorá-lo por lunático resultará em maior sofrimento, tal como ela fez com Hitler.

Tal atitude teve, como menciona a mensagem do Centro Mundial, o apoio que a imprensa e de outros meios de comunicação em massa têm dado aos crentes oprimidos no Irã, e a advocacia de sua causa por ativistas sociais, e a simpatia manifesta na voz de intelectuais iranianos que evocam sua esperança e gratidão.

Começando a ser comparado ao regime Nazi, e criticado por líderes religiosos, por governos de diversos países, pela União Europeia, pelo Observatório de Direitos Humanos, pela Comissão Internacional de Juristas e pela imprensa internacional, alguns estudiosos iranianos, dentro e fora do país, chegam mesmo a temer que que este possa ser apenas o começo de uma nova e forte campanha contra os bahá’ís e que apenas a voz de livre pensadores fora do país, iranianos e de outras nacionalidades, poderão ascender o nível de debate sobre os bahá’ís e impedir que o genocídio perpetrado há 6 décadas e que o mundo ignorou até que fosse tarde demais possa repetir-se, desta vez, no médio oriente.

E, não se poderia esperar uma guia final senão o pedido expresso aos bahá'ís iranianos de evitarem toda divisão e todo conflito, interagirem com todos com polidez e sinceridade, e engajar com seus compatriotas na discussão de ideias e no intercâmbio de pensamentos em matérias sobre as quais estarão ansiosamente preocupados. Acender em seus corações a flama da esperança, fé e certeza de que o glorioso futuro do Irã e o brilhante destino da humanidade que conhecemos certamente virá em breve. Assim, as vítimas da injustiça se convertem na fonte de esperança para todos.

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sexta-feira, maio 23, 2008

O dia em que tudo começou, em 1844!

[os mais sensíveis poderão desejar não ler este texto, eu mesmo tive dificuldades em escrever partes dele...]

Hoje, bahá’ís de todo mundo estariam comemorando alegremente a Declaração do Báb, o Arauto da Fé Bahá’í. E, não fosse a nossa prescrição de comemorar mais do que entristecer, poderíamos estar celebrando o início das perseguições aos bahá’ís. Em 1844, quase ao mesmo tempo que Samuel Morse enviava a mensagem que viria alterar o rumo da ciência, noutro ponto do planeta, o Báb anunciava ser o Prometido aguardado pelas Escrituras Sagradas de religiões anteriores, Cuja missão seria preparar o caminho para Um maior que Ele que – de acordo com aquelas Escrituras – viria inaugurar uma Nova Era espiritual para a humanidade, aonde a retidão e paz seriam aclamadas, iniciando um novo ciclo na história religiosa da humanidade.

Como muitos saberão, a Fé Bahá'í gira a volta de três Figuras centrais, a primeira das quais era um jovem de 25 anos nativo da cidade de Shiráz (a mesma dos 54 jovens bahá’ís presos) conhecido como o Báb (do árabe, a Porta).

O fanatismo déspota iniciou rápida e severa perseguição, precipitando a prisão do Báb, Seu exílio às montanhas do Azerbaijão, aprisionamento na fortaleza de Máh-Kú e Chihríq e a Sua execução, em Julho de 1850, por um esquadrão de fuzilamento em praça pública de Tabríz. Não menos de 20 mil de Seus seguidores foram mortos com tal crueldade bárbara que chegou a evocar a simpatia e a inqualificável admiração de um número de escritores, diplomatas, viajantes e académicos ocidentais, alguns dos quais foram testemunhas desse abominável ultraje, e foram levados a registá-lo.

O escritor português, Eça de Queirós, chegou a escrever que

Calado, invadido pelo pensamento do Báb revolvia comigo o confuso desejo de me aventurar nessa campanha espiritual… Por que não? Tinha a mocidade, tinha o entusiasmo… Via-me discípulo do Báb… E partia logo a pregar, a espalhar o verbo babista. Onde iria? A Portugal, certamente, levando de preferência a salvação às almas que me eram mais caras.

Leo Tolstoy afirmou que

Os ensinamentos dos Bábís possuem diante de si grande futuro… Portanto, simpatizo com os ensinamentos babís de todo o meu coração, já que ensinam a fraternidade, a equanimidade e o sacrifício da vida material em favor do serviço de Deus…

A vida de muitos bábís foi-se convertendo em vidas exemplares, semelhantes às dos apóstolos e discípulos de Cristo, que eram degolados por leões, aos olhos de todos. Doutos do clero e líderes estatais queriam, uma vez mais, cortar a árvore da religião com o machado do sangue. Mas não conseguiram! Chumbo derretido era derramado pela garganta de um depois de torturado impiedosamente enquanto soldados colocavam velas acesas em buracos feitos no corpo de outro. Foram procurados de casa em casa, presos, condenados a mortes indescritíveis. Um oficial austríaco chegou a descrever aqueles que

com os olhos arrancados, devem comer, no local do suplício, sem qualquer tempero, suas orelhas amputadas; ou estes cujos dentes são extraídos com desumana violência pela mão de seu executor; ou estes cujos crânios nus são esmagados a golpes de martelo; ou ainda, estas infelizes vítimas que servem de lampadários ao mercado, tendo (…) seus peitos e ombros profundamente cavados pela populaça que insere mechas acesas nas feridas abertas. (…) Não raro acontece que o infatigável engenho dos orienteis se dirige no sentido de torturas novas. Assim, esfolarão as plantas dos pés do babí, embeberão as feridas em azeite fervente, calçarão os pés com ferradura em casco de cavalo e obrigarão a vítima a correr. Nenhum gemido se ouve do peito da vítima; o tormento é suportado em tétrico silêncio pela sensibilidade entorpecida do fanático; deve correr, agora; o corpo não pode suportar o que a alma suportou – cai. (…) Vi cadáveres esfrangalhados por cerca de cento e cinquenta balas. Quando releio o que já escrevi tenho a impressão de que aqueles que estiverem convosco em nossa mui querida Áustria duvidarão da inteira veracidade deste quadro, acusando-me de exagero. Prouvera Deus que eu não tivesse vivido para vê-lo!

Prouvera Deus que eu não tivesse que o ler, pensando que a história se repete ou poderá repetir! Que os bastiões dos Direitos Humanos se ergam: governos e estadistas, pessoas comuns como cada um de nós, ergam e demandem o fim deste século e meio de sofrimento baixo o jugo do fanatismo! Será necessário repetir o erro do passado remoto em que cristãos sofreram por 3 séculos: os bahá’ís terão que sofrer ainda século e meio? Um sofrimento cujo propósito é a eliminação completa desta Fé?

Enganam-se aqueles que crêem que conseguirão tal proeza! O Professor Benjamin Jowett, Mestre de Balliol, afirmou que apesar do descrito,

Não será impossível ao movimento Bábí vir a se mostrar possuidora da promessa do futuro.

Este Movimento Bahá’í é a maior luz que apareceu no mundo desde o tempo de Jesus Cristo. Devem observá-lo e nunca perdê-lo de vista. É demasiado grande e está demasiadamente próximo para que esta geração o compreenda. Somente o futuro poderá revelar sua importância.

Para os que ainda não entenderam o crime dos bahá’ís iranianos, a Freedom to Believe Foundation explica-o bem:

Estes homens e mulheres, junto com milhares de bahá’ís no Irã que foram aprisionados, torturados e executados no decurso do último século estritamente por causa de suas crenças. E qual é o seu crime? São cidadãos do mundo que têm uma lealdade sadia ao seu país e desejam vê-lo prosperar. (…) Por causa de sua fé, não participam em partidos políticos e mantém-se firmes às suas convicções de que todos os povos deveriam ter o direito à consciência. Acreditam, em última instância, que a raça humana é uma família, que somos guiados e protegidos por um Deus, o Fundador de todas as grandes religiões da humanidade, que nos ensinam a respeitar o próximo, apreciar a diversidade de crenças e amar ao próximo.






[O vídeo faz mostra documentos do Estado Iraniano demandando a vigilância, expulsões e restrições aos bahá'ís, mostra alguns dos bahá'ís presos e mortos no Irã (pessoas comuns, líderes da comunidade bahá'í, jovens trabalhando como professores, crianças e jovens como Ruhu'lláh e Mona), a lista dos executados e desaparecidos, a destrução de locais sagrados (templos, sítios históricos, cemitérios), slogans anti-bahá'ís em paredes de casas]

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