segunda-feira, maio 19, 2008

Bahá'ís presos

Anualmente, o Corpo Supremo Bahá’í emite uma mensagem a todos os crentes pelo mundo. Este ano, nessa Mensagem, pode-se ler que conscientes das forças de integração e desintegração que operam na sociedade atual pode-se ver o fracasso dos sistemas do mundo. A humanidade sofre pelas forças da opressão, sejam elas originadas nas profundezas do preconceito religioso ou sobre o materialismo desenfreado.

Estas forças – de integração e de desintegração – são as que, por um lado, permitem que o Golfo Pérsico melhore as suas relações interreligiosas, ao mesmo tempo que, por outro, comprovam a degradação ao mais triste grau.

Relatórios internacionais e centros de notícia por todo o globo têm passado a notícia do encarceramento de 7 líderes bahá’ís da Comunidade Bahá’í no Irã, pelas autoridades policiais do ministério da informação. Invadiram as casas de 6 deles a 14 de Maio e prenderam-lhes sem constituírem acusação. Fariba Kamalabadi, Jamaloddin Khanjani, Afif Naeimi, Saeid Rezaie, Behrouz Tavakkoli e Vahid Tizfahm juntaram-se a Mahvash Sabet, a sétima membro do intitulado Amigos Bahá’ís do Irã (Yaran’i Bahá’í), que já se encontra presa desde 5 de Março deste ano.

O seu crime é única e exclusivamente serem bahá’ís, o que é considerado um crime de apostasia, conforme relata a CNN. O Departamento de Estado do EUA já se pronunciou sobre o tema, declarando que se trata de “uma clara violação dos compromissos e obrigações do regime iraniano no que respeita às normas de liberdade religiosa”. o ministro de Relações Exteriores do Canadá afirmou "profunda preocupação" e Joseph K. Grieboski, um dos grandes relatores dos Direitos Humanos, lembra que:

A maior recolha e detenções dos líderes bahá’ís nacionais ocorreu no início dos 1980s. Em 1980, todos os 9 membros da liderança bahá’í foram raptados e então desapareceram. Os bahá’ís não têm clero oficial, e desde que suas Assembleias Espirituais foram banidas pela lei após a Revolução Iraniana de 1979, têm contado com a eleição de comités nacional e locais como líderes da fé.

O governo iraniano severamente restringe as vidas e práticas religiosas dos bahá’ís, que são cerca de 300.000 e são a mais ampla minoria religiosa do Irã. Os bahá’ís também sofrem mais discriminação oficial e assédio que os seguidores de qualquer outra fé minoritária. Os bahá’ís são impedidos de servir no governo e exército, e geralmente é-lhes negado a admissão a universidades estatuais.

Escusado será dizer que os bahá’ís de todo o mundo temem que seus irmãos em Fé sejam torturados ou mesmo executados como os oito líderes da Assembleia Nacional dos Bahá'ís do Irã executados em Dezembro de 1981, ou dos mais de 250 executados desde a Revolução Islâmica de 1979. Ou ainda que o número de presos aumente, tendo em conta os milhares de presos desde a Revolução, os 54 jovens presos no ano passado por trabalharem num projeto social com aval da UNICEF, ou que as perseguições piorem para as crianças que são maltratadas em escolas públicas, ou os bahá'ís que são amarrados em árvores para ser queimados com gasolina.

[14 de Maio de 2008: seis líderes bahá'ís de Teerã são presos, levados à prisão de Evin
5 de Março de 2008: proeminente bahá'í de Teerão chamada a Mashhad para interrogatório, ainda detida].

Gostaria de terminar este texto com o pensamento de Wendi Momen sobre o tema, algo que muitos poderão estar a pensar enquanto lêem estas linhas:

Comparado à perda massiva de vida no Burma e na China, comparado ao colapso de toda uma economia no Zimbabué, o aprisionamento dos Bahá’ís no Irã parece irrelevante, certamente indigno de notícia.

Um dos piores traços dos desastres que têm cercado o nosso mundo é que têm sido constituídos pela nossa inabilidade coletiva em agir coletivamente. Ainda estamos divididos por país, raça, religião, cor de pele, classe e sexo. Falhamos em lidar uns com os outros com justiça e humanidade. Pessoas morrem em furacões mas muitos mais morrem porque nossos líderes não confiam em trabalhadores que ajudem e assistam àqueles feridos ou carentes de comida e água. (…) A pessoas marginalizadas, quer em Nova Orleães, Burma, China, Manchester ou Irã, é permitido sofrer porque nós não sairemos para agir juntos e trabalhar em unidade para eliminar ódio, ignorância, pobreza, rancor e preconceito. Podemos conquistar o racismo, empoderar mulheres a avançar, viver mais gentilmente, permitir boa governação para prosperar, trabalhar uns com os outros ao invés de uns contra os outros – mas não o fazemos. Estamos preocupados, estamos frustrados, enviamos dinheiro, oramos – mas não nos unimos e usamos o nosso poder coletivo para lidar com estes assuntos.

Por isso, pergunto, caro leitor, há algo que nós – bloggers e leitores, bahá’ís, cristãos, muçulmanos e ateus, portugueses, brasileiros e iranianos, nacionais e imigrantes, … Há algo que você que lê o texto ou eu que o escrevo possamos fazer para parar mais essa tragédia?– Estou aberto a ideias.

[os 7 bahá'ís presos este ano, em foto oficial]

Afinal de contas:

Tudo o que é preciso para o triunfo do mal é que homens bons não façam nada
(Edmund Burke).

O que me preocupa não é o grito dos maus e sim o silêncio dos bons
(Martin Luther King).

Nós mesmos somos o futuro. Nós somos a revolução
(Beatrice Bruteau).

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sábado, novembro 24, 2007

Para quando a lua cheia?

Há uns dias atrás recebo um email com fotos de dois familiares meus que acabam de dar à luz. Pela alegria traçada no rosto dos pais, parece que a criança é saudável e está tudo bem.

Bem, estaria tudo bem não fosse o local onde a criança nasceu. Existe algures no nosso planeta um país que viola tão abusivamente os direitos humanos que eu nem consegui incluí-lo num texto dedicado ao tema.

Trata-se de um país que, sob a falsa égide da religião, fere, mata e massacra milhares de almas por dia. Não se trata apenas do massacre genocida físico, mas do genocídio da alma humana, da sua liberdade e da sua capacidade de evoluir. Não preciso pesquisar muito para saber as novas desse país de liderança umbilical, vejam-se os exemplos só do último mês:


  • Feizollah Roshan é preso sob o crime de "ensinar a Fé Bahá'í, ser membro e servir na comunidade Bahá’í e ajudar a juventude Bahá’í" (para quem não sabe, bahá'í é uma religião cujo intuito não-político é o de servir ao progresso da humanidade);
  • Delaram Ali é presa por "agir contra a segurança nacional" e "publicitar contra o sistema" (porque ela participava de uma campanha pacífica de recolha de assinaturas pelos direitos das mulheres iranianas);
  • Emadeddin Baghi é preso por "propaganda contra o sistema" e "publicar documentos secretos do governo" (por agir como presidente da Sociedade para a Defesa dos Direitos dos Presos);
  • 180 sufis foram presos por alegadamente atacarem um templo xiita (quando os sufismo é um movimento islâmico pacífico) e os seus advogados de defesa ameaçados e presos, com as autoridades alegadamente incentivado a agressividade popular contra eles.

Além disso, continua a ser o país:

O país aonde esta criança nasceu é o mesmo que já foi um dos maiores impérios do mundo, apogeu da verdadeira democracia humana, relatora da antiga carta de Direitos Humanos do mundo, e que hoje se manifesta na insanidade de alguns líderes que, com a religião como desculpa cometem atrocidades sem fim.

O pior é que essa criança crescerá com uma educação bahá'í, o que implica a educação pela liberdade e responsabilidade, pela igualdade entre homens e mulheres, pelas decisões participativas. Pior porque crescerá no Irã, país onde exatamente o contrário é a realidade.

Então, quando Lino Resende e Pedro Delgado Alves notam que os números das religiões estão a mudar, o extremismo é a sua causa. Se os líderes religiosos entendessem que a religião é causa de concórdia e não de lutas e contendas, a coisa poderia ser resolvida! Mas, o que fazem é entrar em debates internos entre um líder e outro que tentam ver quem tem mais poder e as pessoas começam a perder o seu interesse pela re-ligação entre seres humanos.

Por isso, pergunto-me, tal como diz o Marco, se a hipocrisia ao mais alto nível cessará. E me pergunto, se deveria haver uma invasão internacional ou não. Será que mais vale acabar de uma só vez com a opressão daquela nação para permiti-la renascer de suas cinzas ou deveríamos deixá-la morrer em sorfimento, lenta e dolorosamente? Respondendo ao João Tunes: não sei!

Mas, apesar de tudo, acredito que haja esperança para que o mais novo membro da minha família cresça num ambiente de paz e responsável liberdade no mesmo país onde nasceu. No mesmo Irã que, apesar de tentar, com o apoio de outros dois bastiões (Venezuela e Paquistão), adiar a discussão da sua situação dos Direitos Humanos (proposta de ação A/C.3/62/L.43), não o conseguiu por força contra-argumentária do Canadá (principal impulsionador do debate) e do Liechtenstein: a moção de censura (A/61/443/Add.3 com alterações) contra a situação foi aprovada com 72 votos a favor, 50 contra e 55 abstenções.

Resta saber até quando olharemos para o céu e não entenderemos...

que a lua dos direitos humanos, que está diante nós, não está a minguar mas a crescer, para atingir o seu máximo esplendor como lua cheia que espelha a luz do sol e nos liberta da noite escura.

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