quinta-feira, maio 15, 2008

Acordo Ortográfico (1 de 3) - origens e consequências

É habitual o ser humano temer a mudança, mas ela faz parte da sua natureza. Até mesmo Camões – tão equivocadamente citado na frase “idioma de Camões” (equívoco porque a sua escrita pouco tinha a ver com as formas atuais) – dizia: “Todo o mundo é composto de mudança”.

A necessidade de uma unidade idiomática faz-se fundamental para o progresso da humanidade no estádio de desenvolvimento no qual se encontra. Quem o sabe bem é quem tem um real contacto com outras realidades idiomáticas – e ser tradutor, fazer turismo, ter amigos noutro país não conta: ser imigrante é o desafio do século que está ante nós. Somente aqueles que não tiveram uma experiência fora de suas bolhas podem desconsiderar a necessidade de uma decisão por acordo internacional sobre o tema.

Eu sei um punhado de idiomas e sei escrever, razoavelmente bem, duas variantes do português. Na escola descontavam-me a nota porque escrevia de uma e não de outra forma. Os meus textos são revistos quer no Brasil quer em Portugal, porque não são perfeitamente daqui ou de lá. Eu dou uma olhada na nacionalidade do dono do blog, para saber como construo as frases nos meus comentários. É absurdo que eu tenha que saber duas vezes português, o meu idioma materno!

As mudanças...
...implicariam, para começar que todas as letras do nome dos imigrantes que chegam, dia após dia a Angola, Portugal ou Brasil (são apenas alguns exemplos) constassem do alfabeto. É ridículo continuarmos, numa sociedade global, a recusar que k, w e y não constem dos nossos dicionários.

Outra alteração seria nas palavras compostas. Estas deixariam de ser hifenizadas e passariam a ser aglutinadas. Quantas vezes eu e os meus coleguinhas, os meus amiguinhos que agora andam na escola e aqueles que me precederam devem ter tentado entender algo que seria quase aleatório? Pergunta-se “qual é com hífen e qual é colada?”. Agora, já será mais fácil: será benvinda (e já ninguém vai pensar que poderá ser bem-vinda) e autoestrada (no lugar de auto-estrada). Deixa-se também de ter dúvidas quanto a expressões diversas, como no caso dos dias de sábado e domingo, pois passam a ser uma locução ao invés de uma palavra: fim de semana (e não fim-de-semana).

Deixaremos ainda de ter o acento circunflexo nas terceiras pessoas do plural do presente (indicativo e conjuntivo) de verbos ficando creem, deem, leem e veem. Felizes aqueles que aprenderem agora o idioma, pois terão muito menos trabalho que nós!

Até aqui, parece que ambos os países sofrerão em igual medida. Mas com o desaparecimento das consoantes mudas como h, c e p (de acto e palavras afins), os portugueses sentem-se injustiçados. Admito que também não gosto muito de escrever omem ou úmido, mas esse caminho estava por vir (basta vermos as mensagens de telemóvel ou de comunicação por net e reparar a quantidade de h’s que desaparecem para economizar no espaço) e, também, entendo a sua lógica. Não entendo é o argumento da origem das palavras. Diz-se que a palavra provém de uma raiz tal que esta mudança incorreria a uma espécie de desrespeito. Pois bem, os apologistas dessa tese poderiam explicar-me, por favor, as causas que levam a não escrever sePtembro (que significa mês sept ou sétimo mês) ou a razão de aceitarem bem farmácia no lugar do pharmacia?

Já para aqueles que acham que os brasileiros não perdem muito (um dos maiores mitos do Acordo), lembrem-se que eles perdem o trema (quiçá um descendente do umlaut germânico que em Portugal nem se utiliza) – sequestro é a grafia portuguesa e será adotada no Brasil – e os ditongos abertos ei e oi de palavras paroxítonas também deixarão de ter acento – passando a ser assembleia e ideia, como em Portugal.

No final de contas apenas 2 mil das 110 mil palavras do vocabulário português seriam afetadas por este Acordo que permite aos novos aprendizes do idioma nem ponderarem escrever práCtico (que alguns amigos portugueses teimam em escrever mesmo sendo errado aqui: porque esse c não existe e outros existem?). E, mais permitirá, quem sabe, que se foque mais naquelas dificuldades que tenho visto até nalguns professores universitários em distinguirem fala-se de falasse, cuja confusão é quase abstrusa.

Talvez amanhã, dia que o Parlamento português estabelece o seu voto pela aplicação Acordo possa ser um dia memorável, se apenas aqueles que se acham os barões da língua não se levantarem em protestos…

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quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Discriminação Racial é lei em Angola

Oito anos depois de aprovado em 2000, pela maioria parlamentar (desde 1975) do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) a criação de novo item nos Bilhetes de Identidade dos cidadãos angolanos, há poucos meses das novas eleições, o tema volta à ribalta.

Mas que novo item é esse? Género sexual? Data de Nascimento? Filiação paternal e maternal? Não! Identificação racial! Os cidadãos do país africano terão que ser identificados como brancos, negros ou mistos.

Segundo o Página Um, «Justino Pinto de Andrade, economista e um dos mais respeitados analistas políticos angolanos, diz que "discriminar através do elemento racial é um erro histórico"». E, de fato, lembra-me a situação dos bahá'ís no Egito ou dos judeus na época da II Guerra Mundial.

Além da questão da discriminação, a lei não prevê o que vai mencionar no caso de imigrantes de países em que não se pode dizer se a pessoa é branca, negra ou mista, como o caso dos chineses que estão quase a obter a nacionalidade, ou como é que irão contabilizar o argumento misto.

Agora, mais do que detalhes técnicos está a questão fundamental: se a Terra, cada vez mais se assume como um só país, e a miscelânea de interculturalidade e interracialidade se fazem o espectro comum de todos os locais do mundo, porque estaremos a estabelecer diferenças? Se, cada vez mais, o objetivo é unir os povos do mundo e, no caso de Angola, criar um país unificado longe dos sectarismos que quase o destruíram há poucos anos, porque devemos buscar mais argumentos de separações?

Afinal de contas, somos mais iguais que desiguais!

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